quarta-feira, outubro 15, 2008

Intenção paradoxal

por Victor Frankl

A logoterapia baseia a sua técnica denominada "intenção paradoxal" no fato duplo de que o medo produz aquilo de que temos medo e de que a intenção excessiva impossibilita o que desejamos. Em alemão, descrevi a técnica da intenção paradoxal em 1939, e nesta abordagem o paciente que sofre de fobia é convidado a intencionar precisamente aquilo que teme, mesmo que apenas por um momento.

Vou lembrar um caso. Um jovem médico me consultou por causa do seu medo de transpirar. Sempre que ele esperava uma emissão de suor, esta ansiedade antecipatória já era suficiente para precipitar a transpiração excessiva. Com a finalidade de romper este círculo vicioso, aconselhei o paciente a que, quando voltasse essa transpiração, deliberadamente mostrasse às pessoas o quanto ele conseguia suar. Uma semana depois ele voltou, relatando que sempre que encontrava alguém que nele provocava ansiedade antecipatória, dizia para si mesmo: "Antes eu só conseguia suar meio litro, mas agora eu vou despejar pelo menos cinco litros!" O resultado foi, depois de sofrer desta fobia durante quatro anos, com uma única sessão ele foi capaz de se libertar da mesma permanentemente, em questão de uma semana.

O leitor perceberá que este procedimento consiste numa inversão da atitude do paciente, uma vez que seu temor é substituído por um desejo paradoxal. Através deste tratamento tira-se o vento das velas da ansiedade.

Semelhante procedimento, entretanto, precisa fazer uso da capacidade especificamente humana do auto-distanciamento, inerente a um certo senso de humor. Esta capacidade básica da pessoa distanciar-se de si mesma entra em ação sempre que se aplica a técnica logoterápica chamada "intenção paradoxal". Ao mesmo tempo, o paciente é capacitado a se colocar numa posição distanciada de sua própria neurose. Li uma afirmação coerente como esta, no livro The Individual and His Religion, de Gordon W. Allport: "O neurótico que, aprende a rir de si mesmo pode estar a caminho da autonomia (self management), talvez da cura." A intenção paradoxal é a validação empírica e aplicação clínica da afirmação de Allport.

Retirado do livro Em busca de sentido, parte II, capítulo Logoterapia como técnica. Você encontra o livro em formato eletrônico aqui.

3 comentários:

gdgg disse...

Bom exerto, bom ponto. Boa contribuição.

Lourdes disse...

Olá Daniel!Puxa, como fiquei feliz em encontrar seu blog!
Faz alguns anos, comecei a fazer formação em Logoterapia mas depois mudei para Análise do Comportamento (Sou Behaviorista Radical- Radical de raiz, de origem).A Intenção Paradoxal foi minha ferramenta principal no tratamento de Transtornos de Ansiedade. Só que fiz uma complementação, estudando como funcionava exatamente.O que havia por traz desta prática. E o resultado tem sido usado com muita eficácia pois dou o embasamento tórico de tal prática aos meus pacientes. Explico direitinho como funciona. Tenho estudado profundamento o funcionamento do Sistema Nervos Autonônico ( Simpático e Parassimpático)e conclui que é aí que está a chave da Intenção Paradoxal.
Um abração! Lourdes Sola
lourdessola.wordpress.com

Danielhenlou disse...

Obrigado pela visita e pelo entusiasmo, Lourdes. A logoterapia me ajudou e ainda me ajuda.

Um abração para ti também!