terça-feira, maio 08, 2018

A heresia urantiana - parte 2

No primeiro artigo, apontei que o centralismo romano está em xeque no Livro de Urântia.
Devido aos conflitos com o Império, a igreja romana interditou várias vezes cidades alemães. A interdição é uma punição que inclui a proibição de realizar a missa. Só que as pessoas não deixavam de ser religiosas da noite para o dia. Se não na missa, elas iriam exercer sua fé de outra maneira. Que na Alemanha a mística medieval fermentasse; que uma religião do coração, fazendo pouco caso dos sacramentos, se desenvolvesse nestas bandas, não deveria ser motivo de tanta surpresa.
Duzentos anos depois a coisa explodiria com Lutero.
E aqui continuamos analisando os dogmas proclamados ex cathedra pelos papas.
Lutero era um polemista que escrevia admiravelmente. Convenhamos, porém, que sua tese de que o livre-arbítrio não existe é constrangedora. Pobre de Erasmo, que se viu rebaixado escrevendo laudas e laudas para defender o livre-arbítrio.
Na bula Exsurge Domine, o Papa condena a tese luterana de que “em toda boa obra o justo peca”. Essa discussão sobre graça divina ou boa obra como requisito para salvação sempre me pareceu bizantina. O Livro de Urântia diz que a fé salva. Basta querer.
Sobre o perdão de Deus, parece que Jesus nem gostava da palavra perdão, que denota uma certo distanciamento entre o Criador e a criatura, um arrependimento solene a ser remido. Não, o ponto é conversar com o Pai, cuja compreensão está sempre disponível; é caso também de perdoar o próximo, que deseje ser perdoado. O perdão de Deus e o perdão ao próximo são faces da mesma moeda.
Na bula Cum Occasione, de 1653, que estabeleceu a ofensiva contra o jansenismo, o Papa está certíssimo em dizer que a graça de Deus pode ser resistida pelo homem, ou seja, o homem pode não querer a salvação dada por Deus.
O ponto é o livre-arbítrio: Salva-se quem quer, não quem pode, porque basta querer. A vontade humana e a graça divina se encontram no meio do caminho.
A constituição Coelestis Pastor condenou teses de Miguel de Molina.
Não é necessário anular a própria vontade em submissão à vontade de Deus, diz o Papa sabiamente. O ponto é querer junto com Deus.
“Da mesma maneira que eles nada deviam pedir a Deus”, diz Miguel de Molinos, “tampouco devem dar graças a Ele”.
Não, o Papa está certo. “O agradecimento é a mãe de todas as virtudes” (Cícero). Rever com agradecimento o que se passou no dia antes de dormir pode ser uma boa maneira de se comunicar com o Deus que habita dentro de nós.
Retomando a falsa dicotomia entre graça e boa obra, a constituição Unigenitus, de 1713, condena a tese de Quesnel de que qualquer bem, inclusive a boa obra, depende da graça divina. Ora, já Platão dizia que a virtude é um dom divino, nós somos bons enquanto participamos da bondade divina.
Sempre evitando qualquer fumaça de luteranismo, a igreja católica resolveu encrencar com isso e entrou numa dialética do erro. Querendo proteger os sacramentos, esqueceu que sua função é ativar a vida interior.
Não consigo ver como o juízo de Quesnal, belamente apresentado aliás, de que “o medo só restringe a mão, mas o coração estará viciado pelo pecado enquanto não se guiar pelo amor à justiça” pode ser considerado herético.

quinta-feira, abril 19, 2018

A heresia urantiana

Um espectro ronda o Cristianismo, é o Livro de Urântia.
Mas é um espectro que não se esvanece no ar.
Este artigo comparará dogmas católicos com o que diz o Livro de Urântia.
……
Dogmas são, em primeiro lugar, as revelações de Jesus e dos Apóstolos que os Evangelhos deram a conhecer.
O credo católico tem doze dogmas:
1.º Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra.
2.º E em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor.
3.º Que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria.
4.º Padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado.
5.º Desceu à Mansão dos Mortos, ressuscitou ao terceiro dia.
6.º Subiu aos Céus, onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso.
7.º De onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
8.º Creio no Espírito Santo.
9.º Na Santa Igreja Católica; na comunhão dos Santos.
10.º Na remissão dos pecados.
11.º Na ressurreição da carne.
12.º Na vida eterna. Amém”
Comparemos, então, cada qual, com o livro:

1. Não há maiores problemas, uma ou outra observação pode ser feita. Mas Deus Pai é o Criador fundamental.
2. Jesus não é filho unigênito, Jesus é Filho de Deus, mas não é o único, nem o principal. Jesus é o Filho de Deus Criador de nosso universo.
3. José e Maria já eram casados quando Jesus foi concebido.
O Livro diz que a visita de Gabriel à Maria foi o único acontecimento de índole sobrenatural ligado à gravidez. Sim, Jesus era Deus, Filho do Homem e Filho de Deus, mas os reveladores urantianos não sabem explicar como se deu a encarnação, que segue sendo um mistério.
4. Sim.
5. A Mansão dos Mortos, ou inferno, não existe realmente. As almas iníquas são aniquiladas. As demais, se assim o desejarem, seguem a ascensão aos céus.
Jesus ressuscitou, claro.
6. Sim.
7. Não é bem Jesus, esse julgamento é feito pelos Anciãos dos Dias.
8. Sim.
9. Na igreja cristã, melhor dizendo. O Cristianismo, anota o Livro, se fragmentou porque prevaleceu a ânsia pela uniformidade. O Livro diz que os diferentes tipos de personalidades devem ter sua expressão; que a unidade, não a uniformidade, deve ser buscada.
Sim, homens santos existem.
O Livro faz uma menção pouco abonadora ao inchaço dos santos católicos na Idade Média, porém.
10. Sim.
11. Sim.
12. Sim.
……
Dogmas também são as proclamações ex cathedra do Papa, proclamações que devem guardar ligação necessária com as revelações evangélicas.
Ex cathedra significa que foram feitas com a autoridade da cadeira de Pedro, o primeiro papa; seriam, portanto, infalíveis, uma vez que Jesus teria dado a Pedro as chaves dos céus:
“E eu te declaro: tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra, será desligado nos céus.”
Esta passagem bíblica, goste ou não, é a fonte histórica do centralismo romano da Igreja, uma vez que Pedro escolheu Roma como sua sede.
Já aqui o Livro de Urântia não está bem de acordo com os Evangelhos. Jesus não criou a igreja, a igreja visível. Jesus estabeleceu uma fraternidade espiritual e deu a seus apóstolos, não a Pedro apenas, as chaves do reino exterior, isto é, deu-lhes autorização para que decidissem as questões de ordem econômica, social, organizacional, cultural, relacionadas à fraternidade do espírito. Essas questões, entretanto, não podem ser confundidas com a fraternidade do espírito, a verdadeira Igreja.
Isto terá conseqüências brutais para a igreja católica romana. De imediato, a obrigação de se sujeitar ao Papa, cuja negação é chamada de cisma, cai por terra. Irmandade, deferência pela figura do sucessor de Pedro, o primus inter pares, talvez, mas não sujeição automática.
Selecionei algumas das proclamações aceitas como ex cathedra (as demais, 5 a 10, me exigiriam conferir o que disseram aqueles que o Papa refutava, fica para uma próxima)[1]:
1. Em 449, a carta do Papa São Leão Magno a Flaviano, bispo de Constantinopla, expunha a sã doutrina sobre o mistério da Encarnação de “em Cristo há uma só Pessoa (a Divina) e duas naturezas” (divina e humana).
Perfeito, Jesus é uma personalidade com duas naturezas, divina e humana.
2. Em 680, a carta do Papa S. Agatão “aos imperadores” afirmava, em termos definitivos, haver em Cristo duas vontades distintas, a Divina e a humana, sendo, porém, que a vontade humana ficava em tudo moralmente submissa à vontade divina.
Jesus não tinha duas vontades, tinha uma só, porque a mente de Jesus é uma só.
3. Em 1302, o Papa Bonifácio VIII, através da Bula “Unam Sanctam”, “declara, afirma, define e pronuncia que toda criatura humana está sujeita ao Romano Pontífice”.
Já tratado acima.
4. Em 1336, através da Constituição “Benedictus Deus”, o Papa Bento XII definiu que, logo após a morte corporal, as almas totalmente puras são admitidas à contemplação da essência de Deus face à face.
Não, podem queimar etapas, mas têm um longo caminho pela frente.
Não se trata bem de queimar etapas, é que já as vivenciaram em sua alma, na sua experiência na vida mortal.
11. Em 1854, pela bula “Inefabilis Deus”, o Papa Pio XI definiu o dogma da Imaculada Conceição de Maria.
O pecado original nem existe.
Houve, sim, o pecado de Adão e Eva, que teve enormes conseqüências na história da humanidade, mas foram pecados deles. Os pecados de Adão e Eva não são transmitidos hereditariamente.
12. Em 1950, pela Constituição “Munificientíssimus Deus”, o Papa Pio XII definiu o dogma da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, de corpo e alma.
Nada indica que Maria não tenha morrido normalmente.
……
Agora separei alguns dogmas listados na Wikipedia os quais eventualmente não tenha comentado.
“Em Deus há três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo; e cada uma delas possui a essência divina que é numericamente a mesma.”
Sim, perfeito.
A Virgindade Perpétua de Maria: “A Santíssima Virgem Maria é virgem antes, durante e depois do parto de seu Divino Filho, sendo mantida assim por Deus até a sua gloriosa Assunção”.
Não. Casada com José, Maria teve relações sexuais, que geraram Jesus e seus irmãos.
Cristo nos resgatou e reconciliou com Deus por meio do sacrifício de sua morte na cruz: “Jesus Cristo quis oferecer-se a si mesmo a Deus Pai, como sacrifício apresentado sobre a ara da cruz em sua morte, para conseguir para eles o eterno perdão.”
Não era necessário que Jesus morresse na cruz para que nossos pecados fossem perdoados.
Ele morreu na cruz porque era a vontade do Pai que ele não se escusasse ao julgamento do Sinédrio e de Roma. Jesus foi assassinado, e isso nunca foi necessário para o perdão dos pecados.
A salvação sempre esteve disponível e estaria também se Jesus tivesse morrido de velhice.
A cruz, no entanto, foi uma oportunidade única para Jesus mostrar seu serviço, sua devoção, ao semelhante, que era também sua criatura.
Eu poderia escrever mais sobre o significado da cruz, mas pareceria floreio; Jesus não fez floreio algum, ele te amou.
Dos Sacramentos, pode-se dizer que apenas a Eucaristia foi instituída por Jesus.
O próprio batismo, que Jesus realizou como demonstração de apoio à missão de João, não foi estabelecido por ele. Os apóstolos de João, então preso, em conjunto com os apóstolos de Jesus, decidiram que o batismo seria um sinal exterior, o primeiro, de adesão à Fraternidade dos Céus. O significado mesmo do batismo foi deixado em aberto, os seguidores de João solicitavam o arrependimento, os de Jesus apenas a fé.
O matrimônio deve ser um assunto da ordem civil e social, não da religião. Por mais que a vida em casal possa dar frutos espirituais, ela é uma ligação humana.
Jesus ordenou formalmente seus Apóstolos, mas não instituiu o Sacramento da Ordem.
“Cristo está presente no sacramento do altar pela transubstanciação de toda a substância do pão em seu corpo e toda substância do vinho em seu sangue.”
O Livro se queixa de que a simbologia da última ceia tenha sido aprisionada em fórmulas.
O Livro diz que Jesus sempre está presente na ceia que o rememora.
A Morte e sua origem: “A morte, na atual ordem de salvação, é consequência primitiva do pecado”.
Bobagem, os homens morrem com ou sem pecado.
Morrem materialmente. A morte espiritual é sim conseqüência da adoção da iniqüidade.
O Purgatório: “As almas dos justos que no instante da morte estão agravadas por pecados veniais ou por penas temporais devidas pelo pecado vão ao purgatório. O purgatório é estado de purificação”.

Nem purgatório, nem inferno, como já dito.
“No fim do mundo, Cristo, rodeado de majestade, virá de novo para julgar os homens.”
Jesus voltará a nosso planeta, mas não será no fim do mundo para julgar os homens.

Ver a 2a parte.

quinta-feira, junho 22, 2017

O Manuscrito de Kirbet - A rebelião em Urântia


Novo livro.

Compre aqui.

Segue uma palinha:

Fernando mastigava pães de queijo gordos na padaria da esquina. Ao mesmo tempo, lia a apostila deitada sobre a bancada de vidro. Não podia se desgrudar dela agora. Raspou uma mão contra a outra para tirar as migalhas, passou o guardanapo nelas e na boca, e, desinstalando-se, agradeceu o atendente. Caminhou alguns passos com os olhos baixados na apostila. Ninguém esbarrou nele. Então, guardou-a na bolsa e subiu para o escritório.

“O libelo de Lúcifer dizia que não tinha pai do paraíso algum, que era tudo uma sacanagem dos anciãos dos dias para se imiscuir em seu governo soberano. Deve ser muito difícil para um ser incrível como Lúcifer ver um bostinha como eu tendo a chance de ir mais longe que ele, de ver o pai e depois voltar. Lúcifer não tem esta oportunidade, está preso a seu universo, será que se sente diminuído, rebaixado?, me pergunto. Com certeza se sente rebaixado. Van diz que a auto-admiração dominou Lúcifer. Ele era bom demais para não saber de algo ou para ser supervisionado de fora.

"Você é livre", dizia-me Caligástia. “Livre.” Me senti cheio de vigor, questionei quem estivesse entre mim e todos meus desejos. Era o que me eriçava os sentidos ouvindo Caligástia. Abbadon estava conosco, ele traduzia o "mestre", como o chamava, realçando melodicamente suas propostas. Sentia sua presença me envolver. Era uma sensação de poder, de liberdade e de cansaço.

De descontentamento por não ser pleno, absoluto. Aí senti um vago desapreço por Deus, por Michael.
Estava Caligástia certo? Estavam eles entre mim e a exaltação de mim mesmo, entre mim e a realização total de meus desejos?


Segui para casa desalentado e tonto, tropeçando em mim, chutando pedrinhas. Com raiva, me sentindo estranho. Eles queriam continuar na semana seguinte.”

Os três tipos de poder nas organizações

Publico aqui minha monografia no curso de administração.

......

CURSO DE ADMINISTRAÇÃO
UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ







OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES








DANIEL HENRIQUES LOURENÇO

















RIO DE JANEIRO
05/2017


DANIEL HENRIQUES LOURENÇO









OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES








Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito parcial à obtenção do grau de Bacharel em Administração do Curso de Administração, da Estácio de Sá.

Orientador: FERNANDO QUERUBIM SARDINHA













RIO DE JANEIRO
05/2017


OS TRÊS TIPOS DE PODER NAS ORGANIZAÇÕES





Daniel Henriques Lourenço
Matrícula: 2013.01.95790-9
E-mail: danielhenlou@gmail.com









RESUMO:

O presente artigo visa a analisar os três tipos de poder nas organizações, segundo a teoria de Amitai Etzioni. As organizações militares, empresariais e religiosas serão analisadas à luz destes poderes que as caracterizam. Os poderes coercitivo, utilitário e simbólico perpassam e norteiam a atuação da atividade dessas organizações. O poder coercitivo se caracteriza pela aplicação do uso da força físico-psicológica como ameaça, o poder utilitário deriva da produção de bens e serviços, e o poder simbólico é capaz de conduzir o imaginário popular pela produção de símbolos.  A partir destes três tipos de poder, outras organizações serão analisadas.






Palavras-chave: Poderes, Organização Militar, Organização Empresarial, Organização Religiosa, Etzioni.


1 INTRODUÇÃO

Este trabalho pretende analisar e comparar três tipos de organização, as organizações militares, religiosas e empresariais, e os tipos de poder que as caracterizam.
Em que as organizações militar, empresarial e religiosa se diferenciam, por que são estruturadas de maneira diferente em função de seus objetivos declarados?
Quanto ao objetivo, a pesquisa é descritiva-explicativa. Ela deseja identificar a razão das diferenças entre organizações militares, políticas, empresariais e religiosas, o que envolve sua a descrição.
Quanto à abordagem, a pesquisa será qualitativa, porque analisará as características, significados, valores de diferentes tipos de organização, não tem interesse, por exemplo, em levantar o número relativo dos diferentes tipos de organização, porque não é seu objetivo.
Quanto ao procedimento, a pesquisa será bibliográfica. Serão pesquisados livros sobre o tema dos tipos de poderes predominantes nas organizações.
O objetivo final do trabalho é entender a diferença entre as organizações militar, política, religiosa e empresarial.
Os objetivos específicos são compreender quais as funções eminentes das organizações militar, política, religiosa e empresarial; como elas são estruturadas, com base nas funções que desejam desempenhar; e quais os desvios de sua função a que ficam tentadas.
Os poderes coercitivo, utilitário e simbólico perpassam e norteiam a atuação da atividade dessas organizações. O poder coercitivo se caracteriza pela aplicação do uso da força físico-psicológica como ameaça, o poder utilitário deriva da produção de bens e serviços, e o poder simbólico é capaz de conduzir o imaginário popular pela produção de símbolos.
Serão analisadas também organizações intermediárias, que combinam elementos-tipos das organizações militar, empresarial e religiosa, como partidos políticos, que mesclam elementos das organizações militar e religiosa, e empresas de segurança, cujo objetivo, cuja utilidade, é justamente proporcionar a segurança de quem busque seu serviço.


2     REFERENCIAL TEÓRICO

Amitai Etzioni (1976) assinala os poderes coercitivo, utilitário e normativo como os meios de adesão e obediência que a organização desenvolve para angariar membros, participantes e colaboradores.
“Os meios de controle, aplicados por uma organização, podem ser classificados em três categorias analíticas: física, material ou simbólica. A utilização de uma arma, um chicote ou uma prisão é física, pois atinge o corpo. (...) O controle baseado na aplicação de meios físicos é considerado como poder coercitivo”.
As recompensas materiais consistem em bens e serviços. (...) A utilização de meios materiais com a finalidade de controle constitui o poder utilitário. (...).
(...) A utilização de símbolos com a finalidade de controle é denominada poder normativo.” (ETZIONI, 1976, pp. 94-95)
Esses poderes são predominantes nas organizações militar, empresarial e religiosa.
            Carroll Quigley (1983), igualmente, salienta os três aspectos do poder, que são a força, a riqueza e a persuasão.
“O poder é simplesmente a habilidade de obter a anuência da vontade de outra pessoa. Algumas vezes, isto é sintetizado como a habilidade de obter obediência, mas este é um nível bastante mais elevado de uma relação de poder. Estas relações podem operar em vários níveis, mas podemos dividi-los em três. No mais alto, está a habilidade de obter cooperação plena. Num nível mais baixo está a obediência a ordens específicas, e num nível mais baixo, está a simples anuência, que não passa da permissão tácita de agir sem interferência. Todas estas são relações de poder que diferem apenas no grau e tipo de poder necessário para obtê-las.” (QUIGLEY, 1983, p. 13)
            Olavo de Carvalho (2004) dirá que a identificação plena entre mandante e mandado se dá na relação de autoridade entre pai e filho, ou mãe e filho. Nela, o bebê se entrega totalmente ao discernimento da mãe, que a sua vez procura abrigá-lo e conduzi-lo. A relação de amor é a base original da autoridade. Ela envolve um fascínio semelhante ao entre homem e deus, uma mistura de amor e temor, em doses variadas. O mesmo fascínio que o pavor ou a manipulação amoral podem suscitar. Daí a autoridade de líderes cruéis e psicopatas, numa inversão sinistra e paródica da relação original.
A autoridade cativa um apreço, uma deferência humilde. Não à toa o Livro de Urântia usa a palavra autoridade:
“Jesus, olhando bem fundo nos seus olhos, disse, em uma voz que demonstrava autoridade: "Mulher, vai buscar o seu marido e traze-o aqui". Essa ordem trouxe Nalda de volta a si. Ela notou que havia entendido mal a bondade do Mestre; e percebeu que havia interpretado mal o sentido das suas palavras. E chegou a ficar amedrontada; e começou a compreender que estava diante de uma pessoa excepcional (...).” (LIVRO DE URÂNTIA, 1976, p. 1613)
            A autoridade não é uma relação de poder ainda, está numa esfera de pré-poder. É a identificação imediata com algo superior, fora do concebido, que inibe o trivial e demanda uma aura solene, grave.
Ao longo de sua obra, Platão (2015) nota três dimensões do ser humano, a religiosa-sacerdotal, que busca intimidade com o mundo espiritual, a político-militar, que dá ordens com base na autoridade, e a utilitária-empresarial, que busca satisfazer necessidades e confortos materiais.
Olavo de Carvalho (2006) desenvolveu o estudo das castas indianas, elaborando uma tipologia aplicável a pessoas e organizações de acordo com as atividades a que se dedicam. A casta brâmane é a responsável pela transmissão de verdades espirituais; a casta xátria ordena a sociedade com base na autoridade e na honra, podendo usar a força física para defendê-la de inimigos externos, o que é o caso de uma guerra, e de inimigos internos, punindo fora-da-lei de acordo com seu código criminal; a casta vaixa empreende e toca negócios para enriquecer a si e a sociedade produzindo bens e serviços que as pessoas desejem. Quando estes bens atendem a necessidades, quando são úteis, a atividade vaixa é valorosa, porém quando se volta a realizar caprichos, seu valor é duvidoso. Os shudras são os trabalhadores que, seja porque não se capitalizaram para tocar seu próprio negócio, seja porque assim o escolheram, prestam serviços para outrem em sua organização.
Mário Ferreira dos Santos (1964) apontará que a fé, a valorização da virtude, a prudência e a caridade são as virtudes das respectivas castas.
As organizações militares, empresariais e religiosas têm características marcantes que permitem distingui-las. Cada qual delas tem um valor preponderante, que se reflete na sua estrutura organizacional inclusive.

2.1 Organizações militares

Os militares têm uma organização baseada na força, na intimidação física, na ameaça do uso da força para alcançar seus objetivos.
            A organização militar é o paradigma para entender outras organizações baseadas no uso da força.
            Os objetivos da organização militar a caracterizam menos do que o meio de consegui-los, que é o uso da força. Militares podem derrubar governos; invadir outros países; podem simplesmente acumular força como elemento dissuasório de possíveis agressores, o que caracteriza, aliás, a maioria dos exércitos do mundo hoje, menos agressores, que defensores dos países; seu objetivo importa pouco para caracterizá-la, o qual pode variar 180 graus, desde o assalto até a paz pelas armas, segundo o adágio: “Si vis pacem, para bellum”, todas as organizações militares, entretanto, deverão se basear na sua capacidade de mobilizar força física.
“A revolução na tecnologia militar significa que a missão militar de dissuasão da violência torna-se cada vez mais central, em comparação com os preparativos de aplicação da violência. Esta modificação tende a inclinar o pensamento militar e a organização para o lado do civilismo, à medida que os líderes militares mais se preocupam com variadas gamas de políticas e diretrizes sócio-econômicas.
O caráter anterior e periódico da organização militar (expansão rápida, desmobilização rápida) foi substituído por uma manutenção ou expansão permanentes. O caráter permanente da organização militar removeu uma fonte importante de conflito entre civis e militares, isto é, a tendência civil de abandonar a organização militar depois de finda a guerra. Ao contrário ,em face do alto grau de modoficação tecnológica, multiplicaram-se os conflitos internos entre as forças armadas.” (ETZIONI, 1973, p. 199)
            Como as decisões na organização militar não podem ser tão discutidas a ponto de se perder o trunfo da reação rápida em uma emergência, a ponto de se perder em discussões infrutíferas quando a necessidade é a ação, e havendo a necessidade de uma linha de comando clara, em que o subordinado sabe a quem deve obedecer, a estrutura da organização militar mantém uma configuração linear.
   “A classificação decrescente das organizações, segundo o grau de acentuação da coerção, é a seguinte: campos de concentração, prisões, reformatórios tradicionais, hospitais de internamento para doenças mentais e campos de prisioneiros de guerra. A classificação decrescente das organizações, segundo a predominância do grau de poder utilitário, é a seguinte: organizações de operários, tais como as fábricas, organizações de funcionários, tais como as companhias de seguro, os bancos, as repartições públicas e as organizações militares de tempo de paz. O poder normativo predomina nas organizações religiosas, nas político-ideológicas, nas escolas superiores e universidades, nas associações voluntárias, nas escolas e nos hospitais terapêuticos de doenças mentais. (ETZIONI, 1976, pp. 96-97)
Neste trecho, Etzioni fala sobre o tipo de controle exercido sobre os membros inferiores das organizações. Repare-se que as organizações militares são inseridas no grupo em que o poder utilitário é predominante. O controle através do aspecto utilitário é importante, difícil imaginar um soldado que não receba soldo, embora há registro de milícias voluntárias.
O poder específico da organização militar, porém, é o coercitivo. As organizações militares existem com o objetivo de exercer a força física, caso necessário, seu objetivo é a ameaça do uso de força física, que se concretiza, se o país que representam é atacado. Igualmente, o objetivo das forças policias é a ameaça do uso de força física, não contra inimigos externos, como no caso dos militares, mas contra fora-da-lei. 
Em certas empresas de segurança, os dois componentes, coercitivo e utilitário, estão de tal modo intrincados que não há preponderância de um sobre o outro. O objetivo da organização é lucrar prestando serviços que envolvem a ameaça de força física para proteção de seus clientes.
Exércitos se alimentam de impostos, ou saques, da riqueza alheia, portanto. Empresas, por sua vez, precisam gerar sua riqueza. Elas não tomam de outros. Para tocar seu negócio, precisa ela própria produzir a riqueza. As organizações empresarias, naturalmente, buscam o lucro. Elas se dedicam a fornecer um serviço e produto em troca de dinheiro.
As organizações empresariais têm as mais variadas estruturas.
“A empresa, como organismo vivo, deve estar apta para a contingência natural e inelutável de crescimento. Não lhe resta outra opção, senão a de expandir para sobreviver. O crescimento é sinal de vitalidade e garantia de sobrevivência. Portanto, a estrutura empresária deve ser adaptável a novas condições econômicas e humanas; seu planejamento ideal não deve constituir óbice à realidade de seu desenvolvimento. Os desequilíbrios e as disfunções naturais do crescimento, que uma administração com objetivos definidos deve estar apta a corrigir, encontram na dinâmica de podêres, acionada pelo exercício regular da delegação de autoridade, a resposta correta para o esforço total de expansão.” (MATOS, 1966)
Nos primórdios ainda da organização matricial, Lodi (1970) procurava detalhar seus elementos:
“(...) a organização matricial estabelece que: a) a organização é por projetos, b) cada projeto agrupa diversas fôrças-tarefas recrutadas dos departamentos de serviço originais, c) a duração de cada projeto e, portanto, de cada fôrça-tarefa é limitada à duração do contrato e do cronograma, d) toda a organização é, portanto, provisória e temporária, e) e finalmente mantém-se definida uma relação de linha-staff com os departamentos de apoio (...).” (LODI, 1970)
As empresas se permitem explorar novos modelos de estruturas organizacionais, elas são mais inovadoras que as organizações militares.
“O principal interesse dessas organizações está no controle instrumental de alguns problemas – como a produção e a competência – e não controle de relações e normas estabelecidas pelos trabalhadores, desde que estas não prejudiquem as atividades instrumentais.” (ETZIONI, 1976, p. 105)
O que não equivale a dizer que as organizações militares sejam avessas a mudanças. Não, grandes invenções, depois usadas por empresas, foram primeiro desenvolvidas num contexto militar. No próprio quesito organizacional, mais e mais as forças armadas têm destacado grupos pequenos, num modelo linha-staff, para atuar na guerra em redes, em que os exércitos tradicionais têm relevância menor.
“A liderança baseada nos hábitos militares tradicionais tem que dividir o poder com os peritos, não apenas em assuntos técnicos, mas também em assuntos de relações organizacionais e humanas. Adaptações organizacionais específicas dos meios militares sobrepujam os próprios desenvolvimentos na sociedade civil, já que os militares precisam insistir e persistir para obter inovações e reagem mais rapidamente às mudanças sociais.” (ETZIONI, 1973, p. 202)
Na organização militar há tensões organizacionais que giram em torno do esforço contínuo para desenvolver uma hierarquia de patentes apropriada à nova estrutura complexa de aptidões. Em teoria, pela tradição e pela imagem, o sistema de patentes militares é uma pirâmide contínua, com linhas de autoridade diretas e insofismáveis e canais de comando escalonado. Mas, na realidade, foi transformado em uma hierarquia cuja configuração se assemelha a um losango.” (ETZIONI, 1973, p. 205)
O valor norteador da organização militar é a valorização da virtude: “a organização militar se orienta para o dever e para a honra”. (ETZIONI, 1973, p. 203) Mal internalizado ou deliberadamente deturpado, o valor se torna a cobiça pela glória da conquista.
Há personalidades com uma autoridade independente do cargo, que encantam seus subordinados. Napoleão Bonaparte talvez seja o melhor exemplo. Ele ia à frente dos solados nos campos de batalha, que o seguiam.

2.2 Organizações empresarias

“Organizações econômicas são aquelas cujos objetivos primários consistem em produzir bens e serviços, cambiá-los ou organizar e manipular processos monetários.” (ETZIONI, 1976, p. 138)
Na organização empresarial, o valor preponderante é o desejo de sustentar-se a si, aos seus, de gerar riqueza e conforto. A contraparte deste valor, sua corrupção, é a mera ganância, avareza, desejo de possuir sem pensamento algum sobre como usar o acumulado.
A autoridade de uma personalidade capaz de entregar bens e resultados, gerar riquezas para sua empresa e a sociedade em geral, é menos nítida do que as autoridades religiosas e militares, mas existe, embora só costume ser sentida por quem tem um contato mais próximo com ela. Empresários de sucesso que saem em capas de revista de negócio não inspiram realmente autoridade alguma, quem acredita que as matérias não passam de propaganda do negócio ou vaidade paga?
Podemos destrinchar elementos da empresa: para ser capaz de fornecer um produto ou serviço, primeiro esse produto ou serviço precisa ter sido criado. O papel do inventor é evidente.
Não só, a fim de abrir uma empresa, o futuro sócio precisa dispor de capital ou buscá-lo junto a uma instituição financeira, a qual concentra a poupança de um conjunto de pessoas.
Os três pilares da sociedade capitalizada se delineiam: poupança, invenção e empreendedorismo, este a capacidade de transformar em produtos acabados e desejáveis invenções, admiráveis embora, mas sem utilidade prática ainda. Por isso:
“Na maioria das organizações econômicas, considerações tecnológicas geralmente se subordinam aos critérios econômicos e não há lugar para o domínio do perfeccionismo ideal e de realizações puramente tecnológicas, que não possam vincular-se à produção, nas condições econômicas existentes ou previstas para o futuro próximo. Daí que aqueles que tomam as decisões econômicas geralmente estão em posição de autoridade mais elevada do que os peritos. Na universidade, onde a meta é o conhecimento, onde interesses “improdutivos” de pesquisa são considerados objetivos básicos, e onde as considerações econômicas (como as decisões relacionadas com a distribuição de verbas) se subordinam àquelas considerações “especiais”, é legítimo e também funcional (de acordo com esta análise) que se subordine a administração aos “peritos”, por exemplo, aos conselhos administrativos ou outros órgãos da faculdade. Assim, estudando a distribuição de atividades, decisões críticas e incidências, situações conflitantes e hierarquias organizacionais, podemos determinar qual a orientação primária, qual a secundária, e assim por diante.” (ETZIONI, 1976, p. 139)
O trabalho do inventor, que pode ser um trabalho diletante, na indústria será submetido ao crivo da utilidade. O automóvel foi encarado como uma curiosidade de menor alcance quando inventado. Médicos, porém, logo enxergaram nele a diferença que propiciaria para um socorro rápido.
Um banco precisa de um forte esquema de segurança. A interface das organizações econômica e militar fica clara. Sem quem proteja seus cofres, o banco não se sustenta. Da atividade-meio da segurança, a ser realizada por uma firma contratada especificamente para esse fim, ou por seus próprios funcionários, depende toda a confiança do regime bancário. Na era eletrônica, a segurança se afasta de seu elemento característico, que é a força, para englobar o conhecimento técnico da segurança da informação, contra o assalto de hackers.
Se pensarmos que a riqueza pode ter origem em dez fontes, como delineado por Jesus e narrado no Livro de Urântia:
“E, como ajuda no estudo das fontes da tua grande fortuna, eu sugeriria que tivesses em mente os dez métodos diferentes de acumular a riqueza material:
1. A riqueza herdada — riquezas que se originam de pais e de outros ancestrais.
2. A riqueza descoberta — riquezas que vieram de recursos não cultivados da mãe Terra.
3. A riqueza do comércio — riquezas obtidas pelo lucro justo na troca e no intercâmbio de bens materiais.
4. A riqueza indevida — riquezas que se derivaram de uma exploração injusta ou da escravização do semelhante.
 5. A riqueza dos juros — a renda proveniente das justas e honestas possibilidades de ganho do capital investido.
 6. A riqueza do gênio — riquezas provindas de recompensas de dons criativos e inventivos da mente humana.
 7. A riqueza acidental — riquezas que se derivam da generosidade de um semelhante ou que têm origem nas circunstâncias da vida.
 8. A riqueza roubada — riquezas asseguradas pela injustiça, a desonestidade, o roubo ou a fraude.
 9. A riqueza de fundos — riquezas colocadas nas tuas mãos pelos teus semelhantes para algum uso específico, agora ou no futuro.
 10. A riqueza ganha — riquezas derivadas diretamente de teu próprio trabalho pessoal, a recompensa justa e honesta dos esforços diários de tua mente e teu corpo.” (LIVRO DE URÂNTIA, 1976, pp. 1462-1463)
   A riqueza própria da organização empresarial desponta como a de número 3. Mas as de números 5 e 9 são características de instituições financeiras. Além disso, a de número 6, como já dissemos, é essencial ao aumento da produtividade e portanto da riqueza.
A riqueza de número 10 é própria do trabalho assalariado, isto é, da pessoa que emprega seus dons físicos e mentais a serviço de uma organização empresarial, sem ser seu dono.
Os trabalhadores também se organizam, em associações de empregados e sindicatos, os quais podem ter mais influência política que associações empresariais.
“Existem sindicatos que se apoiam muito no poder coercitivo, a fim de vigiar os membros que se desviam, tal como ocorre nos sindicatos que estão no limiar de organizações “criminosas”; existem “sindicatos comerciais”, nos quais o controle se estrutura, em grande parte, através da capacidade dos representantes do sindicato para “mostrar serviço”, isto é, garantir aumento de ordenado e outras vantagens materiais. Finalmente, existem sindicatos nos quais o controle se baseia na manobra de símbolos ideológicos, tais como o compromisso com uma ideologia socialista.” (ETZIONI, 1976, p. 97)
Um fenômeno das sociedades capitalizadas é que fundos de poupanças de trabalhadores já estão entre os mais capitalizados. Isto quer dizer que os trabalhadores não são meros proletários, que só possuem prole e o necessário à sobrevivência, eles também conseguem poupar; embora indiretamente, são também capitalistas.

2.3 Organizações religiosas

O modelo das organizações baseadas na produção de símbolos é a organização religiosa. Basta pensar na profusão de símbolos associados a Jesus e os santos católicos para se fazer idéia disso.
As organizações religiosas fazem parte daquele grupo mais amplo de atividades que conduz o imaginário de todas as pessoas através dos símbolos que criaram. Esse grupo inclui profetas, poetas, filósofos, no primeiro nível, e seus divulgadores: jornalistas, publicitários, num segundo nível.
A autoridade deste primeiro grupo deriva de sua sabedoria, amor, ligação com a divindade e capacidade envolvente de contar histórias que expliquem a origem do universo e o destino do homem, que ao menos deem conta das perplexidades do homem.
A organização religiosa se dedica especificamente ao símbolo do encontro do homem com o espírito.
O valor específico da organização religiosa é a fé, que rapidamente se deteriora em crença teológica, quando a experiência autêntica é substituída pela defesa argumentativa e pelo sentimento de grupo ante ataques ao simbolismo gerado.
Num sentido mais amplo, a deturpação do simbolismo que abre a imaginação para reconhecer e compreender experiências de vida as quais sem ele ficariam opacas é a manipulação psicológica.
“O controle em organizações normativas”, como Etzioni chama as organizações que se apoiam em primeiro lugar no símbolo, “é muito mais dependente de qualidades pessoais do que nas organizações coercitivas.” (ETZIONI, 1976, p. 102)
“Por isso, através de diversos processos de seleção e socialização, as organizações normativas procuram preencher as posições da organização, de onde se exerce o controle, com indivíduos que exercem influência pessoal e combinam, portanto, o poder normativo da posição (por exemplo, a posição de padre) com o poder pessoal (por exemplo, a personalidade convincente), ou seja, com líderes formais. Os indivíduos sem poder pessoal são frequentemente transferidos para posições da organização onde não se exerce controle, como o trabalho de escritório ou o intelectual. Esses esforços sistemáticos das organizações normativas para proporcionar lideranças nas posições formais, bem como o êxito muito grande desses esforços tornam menos provável o aparecimento de líderes informais.”
Nas organizações religiosas, na realidade, o símbolo nascido da experiência original foi diluído e enquadrado em ritos mais ou menos formais que prometem reviver a experiência original.
Entre as organizações de tipo simbólico e coercitivo, se insere a organização política, a qual manipula símbolos capazes de capitalizar insatisfações dispersas e se propõe a resolver ou amenizar a fonte imaginada dessas insatisfações, para isso se valendo do poder de governo, tão logo lá chegue, que é um poder coercitivo, em parte, e em parte um poder de gerir e distribuir as riquezas dos impostos.


3     ANÁLISE

O referencial teórico apresentou as diferenças-tipo entre organizações militares, empresariais e religiosas, e abriu a partir delas um espectro de organizações com matizes de cada um dos tipos de poderes que caracterizam as organizações.
A organização militar é calcada no uso da força física e da intimidação psicológica.
A organização religiosa, formadora de símbolos, trabalha no nível psicológico-espiritual.
A organização de tipo político-partidário combina elementos das duas, produzindo símbolos que vão ao encontro dos desejos e das insatisfações de uma população para mandar nela, inclusive pela força física, assim que esta lhe esteja disponível. Ela trabalha elementos simbólicos para montar sobre a estrutura principal de uso da força, o Estado.
No nível utilitário da vida, os homens se organizam para produzir bens que satisfaçam suas necessidades físico-biológicas.
O empreendedor pega uma invenção e lhe dá um acabamento comercial, proporcionando seu uso ao público. Para isso, o empreendedor deverá ter juntado uma poupança para investir ou pegará emprestada a poupança alheia disponibilizada através dos bancos.
Nem todas as empresas envolvem uma inovação de ruptura, porém. Sequer uma inovação incremental às vezes. O dono do bazar da esquina pode muito bem tocar seu negócio sem ter feito inovação de negócio alguma.
Se a organização empresarial produz bens, a organização militar tem o poder de pegar estes bens adquiridos. “O imposto se chama imposto porque é imposto”, segundo a frase famosa de Carlos Drummond de Andrade. Ele revela o poder da organização político-militar de tirar das pessoas o que produziram.
Empresas de segurança combinam elementos das organizações empresarial e militar, porque existem para defender a integridade patrimonial e física, esta é sua missão, só não coagem aqueles a quem se propõem a defender a pagar-lhes nada. Existe um acordo, um contrato, em que a empresa entrega segurança e o assegurado paga por isso. Neste sentido, as empresas de segurança se diferenciam das organizações militares, das milícias no Rio de Janeiro ou das máfias, porque não obrigam ninguém a lhe pagar, a lhe dar bens, não ameaçam para se sustentar biologicamente.
Enquanto trocam bens e serviços, as empresas de segurança se assemelham a uma organização empresarial, o serviço que prestam, porém, é de natureza militar.
Organizações religiosas vivem de doações, sobretudo. Na Idade Média, profissões que exigiam um saber técnico elaborado, como a de médico e advogado, eram pagas não exatamente em retribuição ao serviço, mas por gratidão. O pagamento à consulta era, por este motivo, chamado de honorário, que remete a honra. É bastante normal darmos um presente a uma pessoa que nos fez algo por liberalidade, nada ficou acertado de antemão, quanto e o quê seria trocado, mas a pessoa que recebeu o serviço se sente grata e deseja agradar quem a ajudou, quem fez algo por si. Este princípio é primordial em organizações de tipo simbólico.
As universidades nasceram das escolas monacais e carregavam um forte sentido simbólico. As obrigações administrativas e de forma a que estão submetidos professores e alunos nas universidades, porém, prejudica a produção de um saber mais voltado ao conteúdo, revelador da experiência real; ao invés disso, a forma tem uma importância própria, para além do modo com que o conteúdo aparece, o que é um problema desde os primórdios da universidade, pior hoje, porém. Num quadro maior, trata-se de saber como a organização social voltada para a produção do conhecimento influi nessa mesma produção.
A forte presença de partidos políticos e o investimento de capitalistas mais interessados num resultado determinado do que na pesquisa científica em si levantam a questão se a universidade tem só o selo de produção do conhecimento ou se realmente o tem produzido.
Que professores e alunos tenham partidos não é em si um problema, mas se são incapazes de conversar com colegas com perspectivas e experiências variadas, de se abrir ao que pensem, só fazem por amesquinhar a universidade, cujo prestígio social, cada vez mais baixo, será usado para dar credibilidade, para dar ares científicos, ao que não passa de propaganda partidária.
O simbolismo que produzirão pode ter uma influência poderosa, mas pode também esbarrar nas vozes daqueles que não quiseram render as homenagens, os rapapés, tão necessários a uma passagem ou carreira bem-sucedidos neste ambiente degradado, aos assuntos e àqueles que, na realidade, merecem desprezo.


4 CONCLUSÕES E PERSPECTIVAS

O artigo procurou demonstrar os valores específicos das organizações religiosa, militar e empresarial.
A perspectiva de uma organização religiosa é abrir mais e mais mão da autoridade centralizadora, que sufoca o espírito individual dos fiéis. “Se o reino de Deus está dentro de cada um de vocês”, é preciso que o trabalho do padre e do pastor seja menos coercitivo, menos dedicado ao rigor das formas, e mais um trabalho de facilitador, de inspirador do espírito que subjaz à lei.
As organizações militares se adequam à geração das bombas nucleares e de pulso eletromagnético, que praticamente significam a destruição mútua de países que as tenham, na eventualidade de uma guerra. A capacidade de destruição destas bombas põe um certo freio nos ímpetos militaristas. Contra países menores, as organizações militares têm um papel mais tradicional, com o emprego de homens no solo. Mas, mesmo neste caso, a geração de drones também diminui a necessidade de usá-los. Serviços de inteligência é que continuam indispensáveis, promovendo guerras psicológicas e informando sobre a movimentação de grupos terroristas.
A prontidão militar pode prevalecer sobre o imperialismo, mas isso depende do amadurecimento moral-espiritual da casta político-militar.
As organizações empresarias continuarão procurando estruturas organizacionais e métodos de produção que lhe permitam aumentar a produtividade. Sabe-se que a tendência é de produtos cada vez mais personalizados, o que favorece empresas ocupadas com a satisfação de um cliente que já matou suas necessidades básicas.
As organizações militares, empresariais e religiosas poderão mudar de configuração, mas não perderão seus poderes específicos, que são a coerção, a utilidade e a imaginação simbólica.
Note-se que a Idade Média conheceu um tipo de organização bastante específica, que desapareceu no século XIX definitivamente, as organizações monástico-militares, como o nome diz, voltadas à defesa da prática da fé, protegendo peregrinos em viagem a Jerusalém e lutando contra muçulmanos. Uma dessas organizações, os templários, valendo-se de sua rede de castelos e monastérios, chegou a ser o banco da Europa, o que pode ter sido um dos motivos de sua desgraça junto ao rei francês e ao papado depois. É uma organização que chegou a combinar os três elementos-tipos das organizações militar, religiosa e empresarial.
As organizações monásticas de cavalaria mobilizaram o imaginário medieval, inspirando novelas e o desejo de explorar novas terras, de aventurar-se no desconhecido; lutaram efetivamente contra muçulmanos, eram guerreiros no sentido estrito do termo; e, no caso templário, armazenaram bens e emprestaram dinheiro.





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