terça-feira, julho 27, 2010

Bem-te-vis de São Luís

Na direção do Palácio do Governo, o céu tinha-se aberto. E debaixo das nesgas azuis, irromperam das árvores, ainda úmidas de chuva, bandos ruidosos de bem-te-vis. De início, Dom Manuel ouviu-lhes o tatalar das asas nervosas. E eram tantas, que ele se assustou. Depois, começou, no largo espaço entre o Palácio do Bispo e o Palácio do Governo, a bulha dos gritos divertidos, ora aqui, ora ali, ora mais além, depois novamente aqui, e sempre no tom de uma vaia peralta, que só mesmo os bem-te-vis sabem dar.



Dá gosto ouvi-los, ainda cedo, à primeira luz matutina, ou depois de uma pancada de chuva, assim que o sol se abre, esses bem-te-vis de São Luís. Umas cidades têm as suas andorinhas; outras, os seus pardais; São Luís tem os seus bem-te-vis, que nascem com a luz do sol e parecem cantar com ela pelo resto do dia. De relance, dir-se-ia que voam em bando. Na verdade, ao contrário das andorinhas, voam solitários, sem prejuízo das reuniões eventuais no mesmo fio telegráfico, no beiral do mesmo telhado, nos ramos da mesma árvore. Destemidos, apesar de medirem pouco mais de meio-palmo, lançam-se aos urubus em pleno vôo, e os afugentam. Cá embaixo parecem passarinhos bem comportados.



Um deles grita, escandindo as sílabas:

-- Bem-te-vi!



Embora circunscrito às três sílabas inconfundíveis, o grito nada tem de monótono, porque varia de inflexão e disposição oral. Assim: bem-em-em-em-te-vi! Ou simplesmente: te-vi! Por vezes, ouvindo-os ao raiar do dia ou ao cair da tarde, salteia-nos a impressão de que um deles, mais moleque e jovial, zomba do outro, com este grito diferente: eh, eh, eh. E logo ouve a réplica, depois de um ruído repetido de asas no ar: bem-te-vi! bem-te-vi!" (Montello, Josué. Os tambores de São Luís)

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