quarta-feira, janeiro 15, 2014

A fatia do bolo, o jogo de soma zero, o virtuoso e a autoridade

"Most economic fallacies derive from the tendency to assume that there is a fixed pie, that one party can gain only at the expense of another." -- Milton Friedman

A teoria econômica socialista adverte que economia é um jogo de soma zero, que ter muito significa que alguém tem pouco.

Esse raciocínio está certo, por um lado, e por outro, errado.

Por quê?

Como já dissemos, dinheiro é um direito. A reunião de todos os direitos significa o direito de aquisição de todos os bens à venda. Ora, quem tem uma porção maior desse todo, tem direito a adquirir mais bens. Ele tem direito a adquirir uma fatia maior do bolo, o que equivale a dizer que outra pessoa terá uma fatia menor. Maior e menor são conceitos correlativos perfeitamente aplicáveis ao caso.

A economia seria, portanto, um jogo de soma zero. Alguém tem mais porque outro tem menos.

Mas, qualquer troca voluntária de bens implica um ganho de satisfação. Ninguém troca dez por nove, como dizia Donald Stewart. Ou seja, ninguém vai trocar, ou doar, algo, se não for para aumentar seu grau de satisfação, seja material ou moral. A idéia do melhor, que permeia toda atitude humana, nas trocas voluntárias está presente de maneira bilateral. Alguém quer trocar comigo uma maçã por uma laranja porque vai se satisfazer mais com uma laranja. Se eu achar que uma maçã vale mais para mim do que uma laranja, eu troco, se não, nada feito.

As trocas voluntárias implicam necessariamente um jogo de soma positiva. Ambos saem, a seus olhos, ganhando. O historiador brasileiro costuma achar que o português que dava espelhinhos em troca de informações sobre a localização do ouro estava explorando o índio. Mas o índio não pensava assim. Ouro, para ele, não valia muita coisa. Do ponto de vista de cada um, e mesmo que cada um achasse o outro um otário, houve um ganho mútuo de satisfação.

Só faz sentido falar em bolo quando se pensa em dinheiro, em direito. Porque o dinheiro absorveu em si todas as possibilidades de troca. Ele categorizou a troca, universalizou-a como compra-e-venda. Por isso o o dono do dinheiro pode adquirir bens por definir, os quais, enquanto indefinidos, enquanto bens, genericamente, se podem simbolizar como um bolo. O dinheiro dá a sensação de que o bolo é dado, embora seja preparado. Direitos dão a sensação de ser grátis.

No exemplo que usamos antes, a pessoa que troca uma maçã pode, lá atrás, ter pego a semente de uma maçã caída, plantado uma macieira, cuidado dela, até que desse frutos, os quais, agora, satisfeita sua vontade de comer maçãs, entrega as muitas que ainda tem de bom grado a outras pessoas em troca de um pedaço do bolo. Há um fundamento moral para que esse vendedor de maçãs tenha direito a um pedaço do bolo. Se ele produziu e vendeu, não algumas dúzias de maçãs, mas boas e grandes safras, se com elas ainda fez geléias que caíram no gosto de alguns, ou de muitos, tanto melhor, mais ele satisfez o próximo e mais justo é que tenha uma fatia de bolo maior.

A semente que nosso colega do exemplo pegou para plantar sua primeira macieira ele a achou caída. Todo e qualquer bem material tem origem física numa matéria, num recurso natural que ninguém criou. "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma." Esse recurso material não é de ninguém. Isso significa que, para que alguém o use, é preciso que ele lhe seja assinalado por um autoridade, a ser exercida por mútuo consentimento, pela mera força, etc, tanto faz para o que queremos dizer. Se alguém estava sentindo falta de que mencionássemos governo, ordem, etc, aqui está. A propriedade precisa de uma autoridade que a garanta, a definição de propriedade é precisamente essa, faculdade garantida de usar algo mesmo que outra pessoa a reclame para si.

Se definimos, de maneira subjetivíssima*, o direito como a faculdade de agir não sujeita a uma coação posterior, a única ação que poderia ser considerada um direito que nenhum homem tem a capacidade de destruir por completo, é o pensamento espiritual. O homem pode sofrer lavagem cerebral, pode ser reduzido a um estado vegetativo por outro homem, pode ser morto, mas a cidadela do espírito sobrevive, continua. Aqui chega o poder da casta político-militar. Daqui em diante só o poder da genuína casta intelecto-espiritual tem acesso. Ela, porém, não age pela força física, pela intimidação mental, age pela atração do espírito. O único direito, portanto, que não dependeria de autoridade física alguma, é esse. Todos os outros, sim.

Bom, e o que isso tem a ver com o governo? Tem a ver que os recursos naturais, por não serem de ninguém, os quais nenhum homem criou, deverão ser assinalados a cada qual por uma autoridade; trata-se de uma incipiente justiça distributiva de Aristóteles.**

O que isso significa eu não sei, também não sei se deve alguém se sentir devedor porque o fruto de seu trabalho foi antes semente que achou. Mas ser grato à ordem política no qual a semente que achou, as árvores que plantou e cuidou, podem ser suas, e não de ninguém, não é mal algum.

Voltando ao bolo, e sobre a epígrafe desse texto, é muito fácil perceber que, embora seja sempre um, ele não tem o mesmo tamanho nem qualidade em todos os momentos. Quanto mais e melhor, ou menos e pior, se produz***, melhores, ou piores, serão os ingredientes e o cozinheiro do bolo.

Usando a metáfora caríssima de ministros petistas, se virmos o filme, não apenas a foto, a fatia de bolo pode hoje ter um tamanho bem diferente do que tinha noutro período. Minha fatia poderá continuar maior que a de outros, mas a deles pode ter crescido bastante, pode estar muito grande. É por isso que um canadense pobre pode ter um padrão de vida que muitos brasileiros remediados sonhariam em ter.

O fato de querer satisfazer o próximo, para que ele aceite trocar comigo o que eu quero, incrementa a qualidade do bolo, se não seu tamanho.

Na fábula, alguém terá uma fatia maior do bolo porque contribuiu melhor na sua preparação, porque produziu mais e com maior êxito de satisfação das necessidades alheias. As suas necessidades ele buscará agora no bolo, ele que tantas fatias já assou e entregou.

Alguém é mais amado quanto mais amável se mostra.


* Subjetivíssima porque não considera a relação homem a homem, ignora-a por princípio.

** "Os seres de livre-arbítrio que se consideram iguais, a menos que mutuamente se entendam como sujeitos a alguma supra-soberania, ou alguma autoridade sobre e acima deles próprios, mais cedo ou mais tarde serão tentados a experimentar a sua capacidade de ganhar poder e autoridade sobre as outras pessoas e grupos. O conceito de igualdade nunca traz a paz, exceto no caso do reconhecimento mútuo de alguma influência supracontroladora da supra-soberania."

* Essa produção deve ter algum êxito de satisfação própria ou alheia. Fazer algo que ninguém deseje, por exemplo, construir uma máquina que ainda não funcione, que seu dono jogará fora, embora mantenha o projeto, essa máquina não é um bem que satisfaz ninguém, ela não faz parte do bolo.  

Nenhum comentário: