quarta-feira, setembro 25, 2013

Os quatro níveis da atividade política

Em o que fazer?, Lenin define os quatro níveis da atividade política: teoria, propaganda, agitação e organização.

Destrinchemos cada um deles: as discussões teóricas se dão entre intelectuais, muito antes mesmo de qualquer programa político de ação, sequer os tendo em vista porventura. Nessas discussões formar-se-ão alguns grupos que concordam medianamente sobre alguns pontos. Nesse momento, a discussão teórica está madura para dar início à propaganda.

Identificados os pontos com que o grupo de intelectuais concorda, pode-se propagá-los para outras pessoas. A discussão se cristalizou e passa a ser matéria de crença, a água arisca tornou-se gelo, com forma fixa. Aqui entra a fase de convencimento; quer-se a adesão consistente de pessoas a um projeto de poder, que ganha corpo.*

Descendo na escala da elaboração intelectual, compactada em palavras de ordens, diluída em frases de efeitos emocionalmente carregadas, as conclusões provisórias das discussões teóricas agitam panfletariamente populares que se ocupam pouco de política. Não é necessária adesão consciente dos populares ao projeto definido na segunda fase, o objetivo aqui é que se repitam e propaguem, como a música que você canta sem notar que a está cantando ou lembrar onde a escutou, determinados pontos desse projeto que foram ao encontro de seus anseios, dando  expressividade a insatisfações vagas. O núcleo foi definido e começa a se expandir em raios concêntricos.

Pouco importa que os populares concordem ou não com o projeto, essa questão é para ser considerada na segunda fase, aqui importa que o fortaleçam segundo sua maneira de se relacionar com a política, que não é nem intelectual nem de engajamento contínuo, mas acompanhando-a com um interesse relativo. Conquistar sua "neutralidade benevolente" é passo importante para a vitória do projeto.

Nessa fase os partidários do projeto devem também se colocar como vanguarda, motivo de esperança para as aspirações de grupos menores, como o rio principal que recebe a afluência de outros rios.

Obviamente essas fases são tipos ideais, na realidade suas diferenças são de grau, da mesma maneira que no arco-íris não se chega ao azul sem passar antes pelo esverdeado.

A organização se liga intimamente à segunda fase. Ela é o suporte logístico para que a propaganda e a agitação aconteçam, ela angariará dinheiro, criará meios de comunicação, formará a militância, organizará congressos e comícios partidários, assim como conferências de pensadores mais ou menos afinados a seu projeto, não necessariamente orgânicos, para soprar o ar fresco dos debates sobre a doutrina programática.**

A organização poderá dar a seus membros o sentimento de pertencerem a um projeto que se prolonga inclusive para além de suas vidas, o que é um componente forte de atração.

A fase da discussão teórica é, por assim dizer, pré-ativista, da mesma maneira que os filósofos pré-socráticos, embora praticassem a filosofia, não tinham uma auto-consciência definida sobre sua atividade, uma vez que só depois Sócrates configurá-la-ia como um projeto. Da mesma forma, depois que o neoconservadorismo se firmou como uma doutrina política é que se pôde traçar seus antecedentes teóricos e identificar os grupos intelectuais que lhe deram as primeiras feições.


*Filtrou-se a discussão para que possa ser reproduzida; isso não significa, entretanto, que ela deva parar de existir. Se a continuidade das discussões torna provisórias as conclusões, submetendo a uma dúvida perene o programa, o que pode ameaçar seu grupo de crentes, por outro lado pode animá-los com novos desafios. Engessado, mais hora menos hora o programa ruirá.

**Passa sem dizer que nessas conferências os debates serão mais ou menos direcionados, inspirando nos futuros intelectuais o gosto pelos projetos políticos propugnados e reafirmando-o junto ao resto da audiência.

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