segunda-feira, abril 21, 2008

Nelson Rodrigues em Asa de Borboleta e Bárbara Heliodora

Leio no blog Asa de Borboleta um texto de Nelson Rodrigues. A autora teceu alguns comentários. Eu teço os meus. Vamos ao texto e depois aos comentários.

"Hoje, o sujeito vai ver uma peça e tem vontade de pedir como o Hélio Pellegrino: - 'Seja burro, meu amigo, seja burro!'. Não falo por ouvir dizer. Nos últimos tempos, tenho sofrido, na carne e na alma, experiências trágicas. As minhas peças Viúva porém honesta, Os sete gatinhos (a última virgem) e por fim O beijo no asfalto foram encenadas e todas por diretores inteligentíssimos.

Notem: - inteligentíssimos. E foi o mal, o grande mal. E há uma coincidência: - todos diretores paulistas. Por isso quero crer que, hoje, o teatro mais inteligente do Brasil é o de São Paulo. Há, nos palcos de lá, uma rapaziada feroz que reescreve qualquer texto. Que faça isso comigo, vá lá. Quem sou eu, senão um autor modesto, de uma bem-intencionada mediocridade? Portanto, é talvez justo que um diretor paulista sapateie em cima dos meus textos como uma bailarina espanhola. Mas ele fará o mesmo com Sófocles, Shakespeare, Ibsen, etc. etc.

(...)Em suma: - querem assassinar a palavra, e a pauladas, como se ela fosse uma gata prenha. Portanto não existe mais um único e escasso grego, não existe mais um único e escasso Shakespeare, não existe mais ninguém. Quem existe é a rapaziada de São Paulo. Vamos admitir que o teatro existe desde que se esboçou o primeiro gesto humano ou o homem disse a sua primeira palavra. Portanto, é essa tradição de 1 milhão de anos que os diretores paulistanos estão liquidando. é como se alguém afastasse com o lado do pé uma barata seca.

Se o jovem diretor não fosse inteligente, preservaria o texto, e seria fidelíssimo ao texto. E então o público veria O beijo no asfalto, e veria Nelson Rodrigues. Desgraçadamente, estamos diante da inteligência. De intérpretes inteligentíssimos. De contra-regras inteligentíssimos. De bilheteiros inteligentíssimos. Todos estão autorizados a improvisar. Por enquanto, sou eu. Mas quando for um Shakespeare? Façam idéia de um Otelo em arrancos triunfais de cachorro atropelado; e vociferando: - 'Vou-te às fuças!'. Mas esta paródia já fazia Dercy, há trinta anos, com seu maravilhoso histrionismo.

E cabe uma dúvida: - querem acabar com a palavra. Mas acabar com o que não existe? o teatro brasileiro não chegou à sua palavra, não inventou a sua língua. Está certo que o francês faça algo parecido. Já realizou infinitas variações com a sua música verbal. A prosa francesa pensa pelos seus autores e faz os seus autores. Escrevendo aqui, na pobre língua que não temos, Valéry seria talvez nosso J.G. de Araújo Jorge. Primeiro, vamos fazer a nossa Palavra para assassiná-la, depois, com rútilas patadas." (crônica publicada no jornal O Globo em 17/01/1970, republicada em O Reacionário, páginas 125/126, Ed. Companhia das Letras, 2002, São Paulo)

Náo sei se em São Paulo ainda é assim, mas aqui no Rio é. Vejam, essa peça Otelo de William Shakespeare, que foi montada à maneira clássica, não recebe indicação do jornal O Globo enquanto a peça de Chico Buarque por óbvio sim. A mera apresentação de uma peça de William Shakespeare é um evento. Não é nem o caso de a peça ter sido mal montada. Ah, quero dizer que não sou contra reinterpretações, revisões, etc. Isso pode ser muito saudável e até dar um sopro de vitalidade à obra clássica. Por exemplo, o filme Hamlet(não sei quem foi o diretor, mas o ator que intrepretava Hamlet era Ethan Hawke e Polônio foi interpretado por Bill Murray) teve um ótimo resultado substituindo o cenário do reino da Dinamarca por uma grande corporação moderna. O filme Otelo, onde o personagem Otelo não é um general mas chefe da polícia de Londres, também foi bem feito. Pois então, não sou contra revisões, relativizações, mas o relativismo tem que ser feito com conhecimento de causa, com conhecimento do clássico. Só com o fundamento você pode "viajar" depois. Uma casa precisa do alicerce antes de chegar ao telhado. Agradeço à autora do Asa de Borboleta, que aliás se bem me lembro foi o primeiro blog que visitei, pelo texto. E recomendo o blog da Bárbara Heliodora que entra em ativa na próxima semana na revista Bravo. Quem já assistiu a uma palestra da Bárbara, sabe que valerá a pena o blog. A mulher tem tanta autoridade que se ela mandar alguém calar a boca, é impossível a pessoa dizer não, restando apenas obedecer.

Nenhum comentário: