segunda-feira, setembro 17, 2007

A Xeroxona

Bruno Tolentino

A bela Espinozona é mesmo um ás!
Filha da Maria Antônia, e sumidadede
que a USP garante a idoneidade,
se bem me lembra há pouco tempo atrás

era ainda uma vulva tão voraz
que deglutia os mestres à vontade,
chegou a fazer seu mais da metade
de um livro do Leffort - o que aliás

assustou o Merquior... Essa araruta,
que a fim de ter seu dia de mingau,
chupa o trabalho alheio pelo pau,

pode até ser o que ninguém disputa
- a Vênus que dá tudo pela luta -
mas xerox em xereca é genial!

.....................
A homenageada é Marilena Chauí, professora de filosofia da USP. Explica-se: Marilena Chauí foi acusada por José Guilherme Merquior de ter plagiado um livro de Claude Leffort, ao que ela respondeu que teve um caso amoroso com o plagiado em Paris.

domingo, setembro 16, 2007

O filósofo mecanicista

"O filósofo mecanicista professa rejeitar a idéia de uma vontade soberana e universal, a mesma vontade soberana cuja atividade na elaboração das leis universais ele reverencia tanto. Que homenagem sem intenção o mecanicista acaba por prestar ao Criador das leis quando concebe essas leis como sendo atuantes por si próprias e auto-explicativas!
É um erro crasso humanizar Deus, exceto no conceito do Ajustador de Pensamento residente, mas mesmo isso não é tão estúpido quanto mecanizar por completo a idéia da Primeira Grande Fonte e Centro." (Capítulo 6, Documento 3, Livro de Urântia).

segunda-feira, setembro 10, 2007

Cuba em números

Na seção de comentários do artigo Dois pesos e duas medidas, disse que a ditadura castrista matou cem mil pessoas. Os números são esses aqui:

"Fuzilados: 5.621. Assassinados extrajudicialmente: 1.163. Presos políticos mortos no cárcere por maus-tratos, falta de assistência médica ou causas naturais: 1.081. Guerrilheiros anticastristas mortos em combate: 1.258. Soldados cubanos mortos em missões no exterior: 14.160. Mortos ou desaparecidos em tentativas de fuga do país: 77.824. Civis mortos em ataques químicos em Mavinga, Angola: 5.000. Guerrilheiros da Unita mortos em combate contra tropas cubanas: 9.380. Total: 115.127 (não inclui mortes causadas por atividades subversivas no exterior)."

fonte: Cuba em números, por Olavo de Carvalho, publicado no saite midiasemmascara.org

Lista de leitura do St. John´s college

O curso de leitura dos clássicos no St. John´s College dá-se em quatro anos. Os alunos lêem os livros em casa e se reúnem para discutir suas impressões em sala de aula mediados por um professor que limita-se a extrair deles o que eles próprios já sabem. Valei-me Sócrates. Mais informações no próprio saite do St. John´s College ( link ao lado ) e no excelente saite Aristoi ( também com link ao lado ), uma grata surpresa, feito por um monte de bobocas que além de quererem uma educação de verdade aspiram a transmití-la a outros. Devem estar loucos!

Primeiro ano (primeiro semestre):

Homero: Ilíada.

Homero: Odisséia.

Platão: Mênon.

Ésquilo: Agamêmnon.

Ésquilo: Coéforas e Eumênides.

Platão: Górgias.

Plutarco: Vidas de Licurgo e de Sólon.

Heródoto: História (livros I; II, 50-53 112-120; III, 37, 38, 66-87).

Heródoto: História (V, 76-78, 91-93, 105; VI, 48 56-72, 94-120; XII)

Heródoto: História (VIII; IX).

Platão: República.

Aristófanes: As nuvens.

Platão: Apologia de Sócrates e Críton.

Platão: Fédon.

Tucídides: A guerra do Peloponeso.

Platão: O banquete (ou Simpósio)

domingo, setembro 09, 2007

"Honrar pai e mãe"

Filosofia da ética: tópico na comunidade Filosofia em Olavo de Carvalho, no orkut.

Os dois últimos posts foram esses:

Daniel
Concordo, Álvaro. Só adicionaria que em casos de desespero total, quando a pessoa está praticamente insensível, como no caso do personagem de O estrangeiro, e também no de Nicolas Stavroguine, do romance Os demônios, de Dostoievski, só um Viktor Frankl pode ajudar. Ele viveu os horrores do campo de concentração e saiu de lá para ajudar pessoas a encontrarem sentido para suas vidas. O Primo Levi, outro sobrevivente do campo de concentração nazista, escreveu um livro de denúncia e em seguida se suicidou. Frankl, por sua vez, iniciava a sessão de terapia perguntando a seus pacientes por que eles não se suicidavam; a partir de suas respostas ajudava-os a ver o que era importante para suas vidas, por que ela valia a pena. (...)

Álvaro
Viktor Frankl possui uma história fantástica mesmo. Como aquela em que ele encontrou nos escombros de uma igreja bombardeada pelos nazistas uma pedra com o mandamento: "Honrar pai e mãe". O que o levou a ficar na Alemanha cuidando de seus pais até ser preso pelos nazistas.
O título do primeiro livro que eu publiquei (O Amor ao Teatro e o Sentido da Vida) faz uma alusão direta à logoterapia e nele eu discorro sobre Viktor Frankl.

sábado, setembro 08, 2007

Freaking conclusions

Steven Levitt, autor do livro Freakonomics, cujo blog está agora na página do New York Times, chegou à brilhante conclusão de que permitir abortos dimunui o número de crimes. Isso porque as crianças indesejadas, as quais poderiam ser abortadas, são propensas a cometerem crimes quando crescerem. Ok. Mas que tal considerarmos o próprio aborto como um crime? Aí as conclusões se revelam completamente furadas, não é mesmo?
Essa pesquisa foi alardeada em várias páginas da imprensa, e não houve um jornalista sequer para formular a questão nesses termos. Só não me pergunte se agiram por má fé ou por estupidez.

Meu filho ( 8 anos ) perguntou: para que serve ler?

Tópico discutido na comunidade Olavo de Carvalho, no orkut.

Marcelo
meu filho (8 anos) perguntou: para que serve ler?
Ele estava fazendo comparação com o nosso presidente , que não gosta muto de leitura...e não estudou...e é presidente..

leiam mais:

http://cienciabrasil.blogspot.com/2007/09/o-super-ignorante.html

Comentários?

Caio
Se hoje em dia alguém quer viver honestamente, sem passar a perna nos outros, deve se instruir para se inserir na economia

Daniel
Não só para se inserir na economia, uma pessoa tem que buscar conhecimento para saber dos sentimentos humanos, saber o que está sentindo, se conhecer. É mais fácil se relacionar com outras pessoas conhecendo-se e conhecendo aos outros. Pergunte a seu filho se ele quer ser que nem o Lula, um sujeito que nem sabe do que está falando, cujo raciocínio é X igual a A, logo X igual a A, um homem totalmente inócuo, cuja vida é um vexame inconsciente.

Fale para o seu filho que ser presidente da República não é nada perto de ser um Dante Aligheri, um Homero, Platão ou Ésquilo. É nesses ele tem que se esmerar.

Fora Lula

www.grandevaia.org.

terça-feira, setembro 04, 2007

O riso

por Roger Scruton

A razão se mostra em todas as nossas tentativas de entender o mundo e em todas as meneiras de nos relacionarmos uns com os outros. Está presente nas nossas escolhas, e também nas nossas reações involuntárias. Apenas um ser racional é capaz de chorar ou corar, mesmo que essas duas reações estejam fora do alcance de nossa vontade. E apenas o ser racional é capaz de rir. Hienas fazem um som como de riso, mas não se trata na realidade de um sinal de contentamento, nem tem a função social que o riso tem – que é iluminar as nossas diferenças e alegrar-se com o que compartilhamos. O riso não é somente regozijo e confôrto, é a principal maneira de aceitarmos os defeitos de nossos semelhantes. E o riso, embora restrito aos seres racionais, deve ser espontâneo caso se pretenda real. O riso programado é uma espécie de zombaria; a risada espontânea é uma aceitação daquilo que a provoca, mesmo quando, rindo de alguém, jogamos no chão sua auto-confiança.

..................

trecho do artigo O declínio do riso, que pode ser acessado no site do autor, com link aqui ao lado.

A tradução do trecho é minha.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Falsificações da História – O soldado brasileiro e a contra-revolução de 64

por Heitor De Paola em 25 de agosto de 2007

Resumo: A esquerda vocifera com tremendo estardalhaço a necessidade de serem abertos os “arquivos da ditadura”. Apesar de estarem no poder e terem autoridade para obrigar os Comandos Militares a abri-los, apenas seguem vociferando. Será que é por medo de verem seus atos de terrorismo, banditismo e assassinatos revelados ao público?

© 2007 MidiaSemMascara.org

“Quem domina o passado, domina o presente;
quem domina o presente, domina o futuro”.

GEORGE ORWELL, “1984”

O Dia do Soldado é uma ocasião propícia para retomar o tema das Falsificações da História. Cada vez que este dia se aproxima a mídia chapa branca revira os “porões da ditadura” em busca de novos embustes. A principal trapaça deste ano de 2007 é uma série de reportagens do jornal O Globo, do Rio, intitulada “Os brasileiros que ainda vivem na ditadura”. A extensa matéria focaliza a verdadeira ditadura exercida pelos narcotraficantes e as milícias sobre a população mais pobre do Rio de Janeiro, particularmente os favelados. No próprio texto são feitas comparações com os “terríveis anos de chumbo”, mas o must vem no final: um encarte diário, mais ou menos longo, com testemunhos das “vítimas indefesas da ditadura militar”. Traduzindo: subliminarmente equiparam os soldados aos bandidos!
Possivelmente a História, como a conhecemos, tenha sido aqui e ali falsificada, de forma voluntária ou não. Seja por interesse de ocultar ou acrescentar alguma coisa ou por distorção involuntária, seja por se tratar de registro de relatos orais muito antigos já modificados no próprio tempo, o caso é que os documentos históricos nem sempre apresentam os fatos como eles realmente ocorreram. O estudioso de história deve contar com estas possíveis deturpações, principalmente no que toca a relatos de períodos muito antigos, aos quais as teorias não podem mais ser testadas nem a História pode encontrar uma sólida fundação em fatos.
No entanto, os historiadores antigos, sinceros e de certa forma ingênuos, jamais poderiam imaginar que a falsificação da História se transformasse num ofício, numa arte espúria, exercida sistematicamente por milhares de escribas selecionados por autoridades que necessitam manipular os conhecimentos sobre o passado para, seletivamente, expurgar o que lhes retiraria legitimidade ou revelaria suas atrocidades. Pois isto aconteceu exatamente no século em que o crescimento exponencial da capacidade de armazenamento de documentos históricos parecia indicar um futuro promissor para esta bela arte. Desde o golpe de Estado bolchevista na Rússia em 1917 a criação de uma nova História, de novas “verdades”, vem ocupando lugar de destaque na estruturação dos departamentos de desinformação comunista. Ironicamente, Orwell chamou a repartição que tinha esta função em Oceania de Ministério da Verdade.
Basta olhar quem hoje está no poder político no Brasil para perceber que são os derrotados militarmente em 64, os herdeiros dos bolchevistas, que venceram uma das batalhas mais importantes: a cultural. Refugiando-se nesta área negligenciada pelos governos militares, e baseando-se na desinformação e nas orientações de Féliks Dzerzhinsky, o mestre da desinformação e fundador da primeira polícia secreta bolchevista – a Tcheka - passaram a escrever grande parte da História, principalmente aquela de alcance público, acadêmico e nas escolas de todos os níveis, novelas e minisséries de TV. Tornaram-se “donos” dos significados das palavras. Temos hoje muito mais mitologia induzida do que história ocorrida. É trabalho para décadas – se houver liberdade para tanto – desfazer todos os mitos dos chamados “anos de chumbo”. Mas o tempo funciona a favor dos trapaceiros, pois dentro de alguns anos não existirá mais ninguém das gerações que viveram a vida adulta naqueles tempos, hoje já acima dos sessenta. Contam com o tempo para completar o verdadeiro genocídio da História: a morte dos que a conheceram vivamente. E a verdade sumirá se não for tentado algo para salvá-la. Tento fazer a minha parte contando o que vivi.

AS OPÇÕES POLÍTICAS NA DÉCADA DE 60

Uma das maiores distorções é o mito de que soldados maldosos, aliados à “burguesia” nacional “ameaçada em seus privilégios” - e subordinados às demandas maquiavélicas dos Estados Unidos - resolveram abortar pelas armas a política conduzida por um governo legítimo e que atendia aos “anseios populares”. Em primeiro lugar, esconde-se o fato de que em 1959 a geopolítica da América Latina tinha virado do avesso pela tomada do poder em Cuba por Castro, que logo assumiu sua condição de comunista e se aliou à URSS. Seguiu-se um banho de sangue de proporções inimagináveis – do qual é proibido falar! - e a lenta e progressiva instalação na ilha de numerosos instrutores soviéticos que adestraram tropas cubanas, formaram e exportaram guerrilheiros e terroristas, e re-estruturaram o sistema de Inteligência. Através desta “cabeça de ponte” aumentou sobremaneira a influência da URSS na AL. Os jornais noticiavam diariamente as tentativas de derrubada do governo legitimamente eleito da Venezuela, país-chave pela produção petrolífera. O próximo objetivo estratégico era o Brasil, país imenso, já em fase inicial de industrialização e cujas Forças Armadas representavam um poderoso obstáculo à penetração comunista no Continente.
25 de agosto de 1961, a renúncia de Jânio Quadros marca um momento importante. O Vice, João Goulart, encontrava-se na China e declarou que iria comandar o processo de “reformas sociais” tão logo assumisse. Os Ministros Militares e amplos setores civis se opuseram à posse de Jango por suas notórias ligações com a esquerda. Seu cunhado Brizola, Governador do Rio Grande do Sul reagiu, o Comandante do Terceiro Exército, Gen. Machado Lopes, ficou do lado dele e o Brasil esteve à beira da guerra civil. A Força Aérea chegou a dar uns tiros no Palácio Piratini. Brizola tomou todas as rádios de Porto Alegre e obrigou as demais a entrarem em cadeia, a Cadeia da Legalidade! E lá estava eu, “comandando” uma mesa em plena rua na cidade de Rio Grande-RS, a uns 4° C, com uma lista de assinaturas para quem quisesse “pegar em armas pela legalidade”, atuando em conjunto com membros do extinto PCB. Com a emenda parlamentarista tudo se acalmou, mas em janeiro de 63, num plebiscito nada confiável, o país retorna ao Presidencialismo.
Fiz parte da Juventude Trabalhista e só não entrei para os Grupos dos 11, do Brizola, sobre os quais hoje quase nada se ouve, porque não tinha idade e, portanto, não era confiável. No início dos anos 60 o hoje santificado Betinho, junto com o Padre Vaz, elaborou o “Documento Base da Ação Popular”, que previa a instalação de um governo socialista cristão no Brasil. Mas o documento em que a AP se declarava francamente a favor da instalação de uma ditadura ao estilo maoísta foi mantido secreto até para os militantes da base. Só vim a ter contato com ele através de Duarte do Lago Brasil Pacheco Pereira (um dos membros do Comando Nacional de AP) em agosto de 65, quando, ocupando uma Vice-Presidência da UNE, eu já era mais “confiável”. O documento, que era obviamente o produto de uma luta interna na esquerda mundial, defendia a luta em três etapas: reivindicatória (movimentos populares, greves); política (início das guerrilhas no campo, como na China e Vietnam) e ideológica (a formação do Exército Popular de Libertação). Contrariava a teoria do foco guerrilheiro, preferida por Guevara e Debray.
O MASTER (nome do MST da época), do Brizola, invadia terras no RS (como a do Banhado do Colégio, em Camaquã) e as Ligas Camponesas, de Francisco Julião, com apoio explícito do Governador Arraes, no Nordeste. A CGT, (presidida por Dante Pelacani) e a UNE (José Serra) propunham abertamente um golpe com fechamento do Congresso. Armas tchecas começaram a surgir. O ano de 1963 foi uma agitação só. O movimento estudantil, do qual posso falar, estava dividido entre a Ação Popular (AP) e o PCB. Quem não viveu aqueles tempos dificilmente pode imaginar o nível de agitação que havia por aqui. O re-início das aulas em março de 64 praticamente não houve.
Num encontro em Pelotas, onde eu estudava Medicina, com o último Ministro da Educação do Jango, Sambaqui, no início de março, ele nos revelou que tudo começaria com o comício marcado para o dia 13, em local proibido para manifestações públicas (em frente ao Ministério da Guerra) já em desafio aberto e simbólico à lei, seria continuado pelo levante dos sargentos do Exército e da Marinha - formando verdadeiros soviets - e pelos Fuzileiros Navais em peso, comandados pelo “Almirante do Povo”, Aragão. Pregava-se a subversão da hierarquia e disciplina militares. Seguir-se-ia pelo já programado discurso de Jango no Automóvel Clube do Brasil. A pressão final sobre o Congresso seria em abril e maio: se não aprovasse as “reformas de base”, seria fechado com pleno apoio popular.
Na mesma época, participei de uma ação comandada por um agitador da Petrobrás e da SUPRA (Superintendência da Reforma Agrária), em Rio Grande, pela encampação da Refinaria de Petróleo Ipiranga o qual, num discurso na Prefeitura, declarou que a República Socialista do Brasil estava próxima. As ocorrências de março só confirmaram a conspiração acima mencionada. No comício do dia 13 Brizola pregou o fechamento do Congresso se não aprovasse as tais “Reformas de Base” (na lei ou na marra) – ninguém me contou, eu ouvi no rádio. Prestes dizia que os comunistas já estavam no Governo, só faltava tomarem o Poder.
Não havia, pois, opção democrática alguma. Restava decidir se teríamos o predomínio dos comunistas ou de uma ditadura ao estilo peronista, chefiada por Jango. As passeatas civis – as Marchas da Família com Deus pela Liberdade - estavam nas ruas exigindo o fim da baderna e em apoio ao Congresso. Sugerir que se devia esperar que Jango desse o golpe para depois tirá-lo, me parece uma idéia legalista infantil, pois então teria que ser muito mais cruento. Foi, na verdade, um contra-golpe cívico-militar preventivo.

PARTICIPAÇÃO DOS EEUU

Outro mito é sobre a participação americana no “golpe” de 64. Chamada de “Operação Thomas Mann” (nome do então Secretário de Estado Adjunto para a AL) não passa de uma mentira baseada em documentos forjados pelo Departamento de Desinformação através da espionagem Tcheca. Quem montou a operação foi o espião Ladislav Bittman que, em 1985 revelou tudo no seu livro “The KGB and Soviet Disinformation: An Insiders View”, Pergamon-Brasseys, Washington, DC, 1985. Segundo suas declarações, “A Operação foi projetada para criar no público latino-americano uma prevenção contra a política linha dura americana, incitar demonstrações mais intensas de sentimentos antiamericanos e rotular a CIA como notória perpetradora de intrigas antidemocráticas”. Outra fonte é o livro de Phyllis Parker “Brazil and the Quiet Intervention: 1964”, Univ of Texas Press, 1979, onde fica claro que os EEUU acompanhavam a situação de perto, faziam seus lobbies e sua política com a costumeira agressividade, e tinham um plano B para o caso de o país entrar em guerra civil. Entretanto, não há provas de que os Estados Unidos instigaram, planejaram, dirigiram ou participaram da execução do “golpe” de 64. Embora as revelações tenham sido tornadas públicas em 79/85, a imprensa brasileira nada publicou a respeito não permitindo que a opinião pública tomasse conhecimento da mentira que durante anos a enganou. Apenas a revista Veja na sua edição nº 1777, de 13/11/02, publica a matéria “O Fator Jango” de autoria de João Gabriel de Lima, onde este assunto é abordado. Recentemente (3/7/2007), O Globo publicou com grande estardalhaço documentos que eram conhecidos desde 31 de março de 2004, aos 40 anos do movimento, quando a CIA desclassificou documentos da época que revelam um grande interesse da Casa Branca, do Departamento de Estado e da CIA no que estava por ocorrer no Brasil. Qual o interesse de “revelar” documentos já conhecidos há mais de 3 anos como se novidade fosse? Não sei, mas é mais uma peça de desinformação, pois o que demonstram é que havia planos para apoiar o movimento cívico-militar, o que já era sabido por todos que viveram aqueles tempos ou se interessaram em estudar.

A LUTA ARMADA E O AI-5

Finalmente, o mito de que brasileiros patriotas e democratas se levantaram em armas contra o “endurecimento da ditadura” através do Ato Institucional Nº 5, 12/68. A UNE, foco permanente de agitação esquerdista ficou acéfala com a fuga para o exterior do Presidente eleito em 1963, José Serra, hoje Governador de São Paulo e foi extinta pela Lei Suplicy (Lei Nº. 4.464, de 9/11/64). No mesmo ano, Alberto Abraão Abissamara, Presidente da UEE da Guanabara, tomou conta dos arquivos que sobraram e convocou um Congresso para julho de 1965 que veio a ser realizado no Centro Politécnico em SP no qual fui eleito Vice-Presidente de Intercâmbio Internacional. Em outubro fui preso em Fortaleza, o que impediu minha ida ao Congresso da União Internacional de Estudantes na Mongólia, onde seria traçada uma estratégia de recrudescimento da violência revolucionária na AL. Quando retornei ao Rio a Diretoria eleita naquele Congresso estava dissolvida só restando o Presidente, Antonio Alves Xavier, o Primeiro Vice, José Fidelis Augusto Sarno, Altino Dantas e eu. O primeiro estava tomado de uma megalomania revolucionária que fez com que nos afastássemos dele e Altino tomou seu lugar. Eu pensei que seria impossível levar avante a tarefa. Como me afastei, só vim a saber bem mais tarde que a missão que seria minha naquele Congresso da UIE era de denunciar o “reformismo e a conciliação” daquela entidade com os “imperialistas”. A denúncia foi feita e há notícias de que 13 delegações se retiraram do Congresso, entre as quais a delegação da UNE, a chinesa, a cubana e uma delegação norte-americana, o que foi confirmado por Carlos I. Azambuja.

NOS “PORÕES DA DITADURA”

Fui preso pelo DOPS e encaminhado ao 23º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza, onde permaneci durante dois meses. A única tortura a que fui submetido foi permanecer este tempo todo incomunicável. Fisicamente jamais me tocaram, pelo contrário, fui bem tratado, inclusive em função de uma diarréia inicialmente verdadeira e artificialmente “prolongada” por mim, passei a comer do cassino de oficiais. Vale recordar dois episódios, um hilário e outro que guardo com gratidão.
Terminado o IPM eu poderia sair do quartel mas como estava por chegar um Promotor do Superior Tribunal Militar para me re-inquirir para a instrução do processo junto ao STM, o encarregado do inquérito, Major Edísio Facó, sugeriu que eu ficasse no quartel entre os toques de recolher e o de alvorada. Criou-se um impasse: como ficariam meus pertences durante minha ausência? Na época eu estava no xadrez da Enfermaria e o Sargento encarregado encontrou a solução: trancou o cadeado e entregou-me a chave! Que eu saiba fui o único prisioneiro da história a ter a chave da cela!
O outro episódio se deu porque, apesar da incomunicabilidade, consegui que um soldado que terminara sua pena passasse um cabograma para meu pai avisando que eu estava preso. Meu pai era maçom tendo galgado todos os postos dentro da Ordem, menos o de Grão-Mestre. Mas o Grão-Mestre do Rio Grande do Sul era muito amigo e comunicou-se com o do Ceará, Sr. José Ramos Torres de Melo que foi me visitar sem poder falar comigo a não ser através do Chefe da S2 e quando saí tratou-me com um pai, emprestou-me a quantia que eu precisava para retornar ao Sul sem me permitir sequer passar um recibo – “entre irmãos isto não é necessário, sei que seu pai me pagará”. Muitos anos depois, já nesta luta “do outro lado”, vim a saber que se tratava do pai do General Francisco Batista Torres de Melo, Presidente do Grupo Guararapes.

DE VOLTA

De 66 – ano da Conferencia Tricontinental de Havana e da fundação da Organización Latino Americana de Solidaridad (OLAS) - a 68 participei, no Sul, das intensas discussões clandestinas sobre a luta armada conduzidas por militantes da AP treinados em Pequim. Em janeiro de 68, 11 meses antes da edição do AI-5, a luta foi implementada por todas as organizações revolucionárias, menos o PCB. A AP “rachou”, eu fiquei do lado contrário à maluquice da luta armada. Logo depois, mudou o nome para Ação Popular Marxista-Leninista do Brasil, o que já estava previsto no citado documento secreto desde 63/64. Como vários autores mais credenciados já têm se manifestado sobre isto, não vejo necessidade de mais para deixar claro que o AI-5 não passou de uma reação ao incremento das atividades revolucionárias, e não o oposto, como reza a “história oficial”.
Um outro fator a influenciar minha decisão de sair foi quando, numa reunião do “Comando Zonal Sul - RS”, discutia-se o caso de um militante recém “ampliado” que, por força de nosso apoio tornara-se Presidente de um importante Centro Acadêmico e dava mostras de “fraqueza ideológica” e independência de pensamento. Passou-se a discutir se num processo revolucionário aberto, que estava em preparação, alguém teria coragem de matar um “companheiro” ou ao menos dar a ordem para isto. Eu disse que teria coragem de dar a ordem. No momento, até a mim mesmo pareceu uma bravata, mas, mais tarde, pensando comigo mesmo fiquei horrorizado com a possibilidade de chegar a um ponto em que isto se tornaria inevitável: numa situação plenamente revolucionária pode chegar o momento do “ou ele ou eu”. Isto aconteceu em final de 1967; logo em janeiro de 1968 fomos informados das preparações para a “luta armada contra a ditadura”. Era a hora de dar o fora, o que fiz não sem sofrer ameaças por parte de meus antigos “companheiros”.
Anos depois, ao re-encontrar a esposa de um antigo “companheiro”, ela me contou que o mesmo tinha passado para a clandestinidade tornando-se um revolucionário profissional. Ela o acompanhara até o momento em que ele lhe mostrou a “necessidade revolucionária” de estar disponível para satisfazer sexualmente outros militantes clandestinos que não tinham como fazê-lo sem risco, fora da organização. Profundamente decepcionada ela o abandonara e voltara para sua cidade e sua família. Mas não pensem os leitores que isto é uma exceção: é a regra!
***
O estranho em tudo isto é que a esquerda vocifera com tremendo estardalhaço a necessidade de serem abertos os “arquivos da ditadura”. Apesar de estarem no poder e terem autoridade para obrigar os Comandos Militares a abri-los, apenas seguem vociferando. Conheço inúmeros militares que desejam ardentemente que estes documentos sejam abertos, mas não podem fazê-lo sem ordem superior. Um deles, o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, vem tentando inutilmente discutir os fatos ocorridos naqueles tempos e não rejeita ser acusado; o que pede – e é de seu pleno direito – são provas e não boatos, fofocas, meros testemunhos sussurrados nas universidades, nas redações e nas reuniões sociais do jet set! Porém, parece que a intenção da esquerda é julgá-lo a priori, antes de ser condenado, só porque pertenceu à odiada “comunidade de informações”.
Quem teme a abertura que tanto pedem by lip service são os que construíram esta mentira em toda a América Latina; temem que as novas gerações descubram que foram seus atos terroristas que levaram à auto-defesa dos governos militares das décadas de 60-70, e não ao contrário.
Os soldados brasileiros não têm de que se envergonhar. Comemorem o seu dia!

Nota do autor: Este artigo é uma versão revisada e ampliada de outro já publicado aqui (Desfazendo alguns mitos sobre 64).

quarta-feira, agosto 29, 2007

Recomendo vivamente..

o texto de Pedro Sette Câmara sobre Bruno Tolentino quando se completam dois meses do falecimento desse.

quarta-feira, agosto 22, 2007

Dois pesos e duas medidas

Aristóteles Drummond
aristotelesdrummond@mls.com.br

Nada mais parecido com o tipo de dialética praticada nos tempos do estalinismo do que o episódio envolvendo os dois pugilistas cubanos. Uma onda cínica tenta ocultar um fato mais do que grave, vergonhoso.

Uma ocorrência normal não faria com que um governo de país reconhecidamente pobre fretasse um avião para buscar dois de seus cidadãos. Não poderiam esperar o vôo comercial que liga Havana a São Paulo? Qual a dúvida de que estaria havendo uma forte pressão sobre as famílias em Havana e uma conivência abominável em Brasília?

No caso Olga Benário, cercado de inverdades, inclusive quanto à participação do então Chefe de Polícia e futuro senador Filinto Müller, um grande brasileiro que presidiu o Senado e foi líder de dois partidos majoritários naquela casa (PSD, com JK, e ARENA, com Costa e Silva), houve julgamento pelo Tribunal de Segurança, presidido por um jurista da estatura de Vicente Rao. A mais, a Alemanha de 1936, quando se deu o fato, vivia seus últimos momentos de democracia e a comunista companheira de Prestes na Intentona de 35 era condenada por crime de morte, que, aliás, nunca negou. Mas a história procura apresentar o presidente Getúlio Vargas como o homem que entregou a militante que aqui chegou a serviço da União Soviética a campos de concentração que só foram criados em 1942.

Os dois pugilistas estão sendo punidos. Não mais poderão sair do país, que, todos sabem, é uma prisão. Fidel é homem rigoroso no ódio e na punição aos que ousam preferir a liberdade. E não tem escrúpulos em castigar as famílias dos que aproveitam a primeira oportunidade para a fuga, como, aliás, ocorreu com dois outros atletas. Estes, no entanto, foram mais rápidos e trataram de sair logo do Brasil, que começa a ganhar feições cubanas e venezuelanas nesse particular.

A reação internacional está aí. Aqui, embora constrangidos por se tratar de contrariar o “Comandante”, boa parte da imprensa já se manifestou além dos editoriais. No Congresso, um grupo de combatentes clama, comandados pelos senadores Heráclito Fortes e José Agripino Maia.

Os senadores sabem que a nota do Ministério da Justiça e as entrevistas dos infelizes atletas possuem a mesma autenticidade e credibilidade do que as operações agropecuárias do presidente do Senado e de sua distância de meios de comunicação em Alagoas. E o país a tudo assiste triste e revoltado, pois se joga com a opinião pública como se esta fosse formada por pessoas com inteligência no limite na imbecilidade.

Para emendar as situação, só mesmo o desafio a Castro de permitir a visita dos dois a nossa Embaixada, para uma conversa com senadores brasileiros. Se possível, com membros da Anistia Internacional e do Comitê Olímpico Internacional.

É preciso que o governo reconheça que houve precipitação no tratamento do assunto. Não se deixa embarcar, em avião fretado, para um país conhecido pelas prisões e por impedir o direito de ir e vir de seus cidadãos, como foi feito. Afronta a todos este tipo de entrega. A América Latina já conviveu com dezenas de ditaduras ao longo de sua história, mas a única que impede a saída dos descontentes é a cubana.

No Brasil, quando um grupo dominado por ódios tais que foram levados à violência, surgiu o movimento do “Brasil: Ame-o ou deixe-o”. Fidel não teria coragem de lançar igual movimento. Ficaria, certamente, com meia dúzia em torno de sua fantasia. Na Europa também, só as ditaduras comunistas erguiam muros e abatiam os que tentavam pular a fronteira. Nos regimes fortes de direita, como os vividos por Portugal, Espanha, Itália e Grécia, nunca se impediu o cidadão comum de sair, como, aliás, muitos o fizeram, inclusive judeus alemães até o inicio da guerra..

Esses fatos precisam ser meditados. Neste milênio, não podemos conviver com a farsa, a mentira, a hipocrisia. A mais, vivemos um momento que supostamente é de liberdade, respeito aos direitos humanos, à ordem e à lei. O episódio foi lamentável.Precisa ser melhor esclarecido e a vida dos dois infelizes em Cuba acompanhada de alguma forma pelos brasileiros.

terça-feira, julho 24, 2007

Saite ( ou sítio ) Língua Brasil

Adicionei na lista de links ao lado o site Língua Brasil, desenvolvido por Maria Lucia Piacentini. Lá se pode tirar várias dúvidas de português. Vou até dar uma olhada para saber se essa última frase está correta.

A escrita de Otto Maria Carpeaux

por José Carlos Zamboni, como parte do ensaio Amigos e inimigos do Carpeaux ( ver em http://br.geocities.com/jc.zamboni/ )

Se o estilo é o homem, e por ele se conhece o autor, a escrita enxuta de Carpeaux, admiravelmente limpa de retórica, não poderia ser opção de um homem moralmente desqualificado: há outras alternativas estilísticas para esse tipo de gente.

João Ribeiro, grande escritor e não menor caráter, afirmava que “o verdadeiro estilo, o estilo do homem de gênio, em certa maneira é falho e pobre de beleza e de outros agrados; porque no estilo é cousa muito principal o caráter e é raro que um homem de caráter seja de trato amável. Assim o estilo. Cícero escrevia excelentemente, mas não há estilo seu, porque é fora de dúvida que foi um mau caráter e um bandoleiro político. Tácito, ao contrário, não tem a pompa de Cícero, os seus períodos são breves e atalhados como que de cólera: mas deixou um estilo e era ao mesmo tempo grande homem de caráter.” (Páginas de estética)

quinta-feira, julho 19, 2007

O fim da experiência poética

No orkut, uma das opcções para a pessoa escolher como visão religiosa é: "Tenho um lado espiritual independente das religiões." É preciso tomar cuidado com isso, às vezes a pessoa diz isso porque tem um sentimento religioso forte, mas não tem fé verdadeira. Como disse Daniela Gouvea, em podcast no site portodoceu.com.br, a pessoa tem um lado espiritual, e o outro lado, é o quê? Oco? o Papa João Paulo II alertava para esse traço característico do brasileiro que é o de ter muito sentimento, e pouca fé. Fé é confiança, não é crença. Se você não gosta de uma religião, não concorda com sua doutrina, desgosta do que o padre fala, não precisa deixar de acreditar em Deus. Bruno Tolentino, o grande poeta que faleceu recentemente, disse que começou a se converter ao cristianismo quando um ex-aluno seu, que havia virado monge, disse-lhe que faltava integridade. Bruno era um homem pela metade. Ele procurava as coisas, não pelo valor delas mesmas, mas para usá-las de alguma forma, para servir-se delas de algum modo. Na entrevista concedida ano passado, reproduzida em vídeo e que pode ser acessada no site O indivíduo, ele se penitenciava do erro de longos anos, quando, respondendo à pergunta de para quê servia a poesia, disse que ela não servia para nada. Não é para ser usada. É para te levar a viver determinadas experiências, que, digamos assim, te enriquecem, te enriquecem espiritualmente. Menos do que isso, acresecentaria eu, não é poesia, é poesia pela metade. Dividir um todo qualitativo em partes não coordenadas é acabar com o todo. É o fim da experiência poética enfim.

sábado, julho 14, 2007

O general profetizou

"Ponha-se na presidência qualquer medíocre, louco ou semi-analfabeto e vinte e quatro horas depois a horda de aduladores estará à sua volta, brandindo o elogio como arma, convencendo-o de que é um gênio político e um grande homem, e de que tudo o que faz está certo.

Em pouco tempo transforma-se um ignorante em um sábio, um louco em um gênio equilibrado, um primário em um estadista. E um homem nessa posição, empunhando as rédeas de um poder praticamente sem limites, embriagado pela bajulação, transforma-se num monstro perigoso."

MOURÃO FILHO, Olympio. Memórias: a verdade de um revolucionário. Porto Alegre, L&PM, 1978. Pag. 16

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Olympio Mourão Filho foi o general que deu início ao movimento de 64, pondo em marcha em direção ao Rio de Janeiro, então capital de fato do país, as tropas sob seu comando em Minas Gerais. O movimento vitorioso derrubou o governo João Goulart, iniciando-se na sequência uma ditadura militar que durou vinte anos.

quinta-feira, julho 12, 2007

O filme que mais me faz pensar

Scent of a Woman

"Take like, and I don't want to push Scent of a Woman, but Scent of a Woman is the book of Ecclesiastes. Now, how many Christians will stay away from that movie because there is cursing and he sleeps with a hooker? That is the book of Ecclesiastes. The man who says, 'All is vanity, all is lost, I have no hope.' It is the love of a boy, the love of a child, God incarnate through a boy, comes in and says, 'I love you,' and it changes his life." (Director Tom Shadyac, interviewed for Catholic Exchange, May 2, 2003).
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Sobre o filme Perfume de mulher. Disponível no site metaphilm.com

quarta-feira, julho 11, 2007

O contrato de casamento

por Stephen Kanitz

Na semana passada comemorei trinta anos de casamento. Recebemos dezenas de congratulações de nossos amigos, alguns com o seguinte adendo assustador: "Coisa rara hoje em dia". De fato, 40% de meus amigos de infância já se separaram, e o filme ainda nem terminou. Pelo jeito, estamos nos esquecendo da essência do contrato de casamento, que é a promessa de amar o outro para sempre. Muitos casais no altar acreditam que estão prometendo amar um ao outro enquanto o casamento durar. Mas isso não é um contrato.

Recentemente, vi um filme em que o mocinho terminava o namoro dizendo "vou sempre amar você", como se fosse um prêmio de consolação. Banalizamos a frase mais importante do casamento. Hoje, promete-se amar o cônjuge até o dia em que alguém mais interessante apareça. "Eu amarei você para sempre" deixou de ser uma promessa social e passou a ser simplesmente uma frase dita para enganar o outro.

Contratos, inclusive os de casamento, são realizados justamente porque o futuro é incerto e imprevisível. Antigamente, os casamentos eram feitos aos 20 anos de idade, depois de uns três anos de namoro. A chance de você encontrar sua alma gêmea nesse curto período de pesquisa era de somente 10%, enquanto 90% das mulheres e homens de sua vida você iria conhecer provavelmente já depois de casado. Estatisticamente, o homem ou a mulher "ideal" para você aparecerá somente, de fato, depois do casamento, não antes. Isso significa que provavelmente seu "verdadeiro amor" estará no grupo que você ainda não conhece, e não no grupinho de cerca de noventa amigos da adolescência, do qual saiu seu par. E aí, o que fazer? Pedir divórcio, separar-se também dos filhos, só porque deu azar? O contrato de casamento foi feito para resolver justamente esse problema. Nunca temos na vida todas as informações necessárias para tomar as decisões corretas.

As promessas e os contratos preenchem essa lacuna, preenchem essa incerteza, sem a qual ficaríamos todos paralisados à espera de mais informação. Quando você promete amar alguém para sempre, está prometendo o seguinte: "Eu sei que nós dois somos jovens e que vamos viver até os 80 anos de idade. Sei que fatalmente encontrarei dezenas de mulheres mais bonitas e mais inteligentes que você ao longo de minha vida e que você encontrará dezenas de homens mais bonitos e mais inteligentes que eu. É justamente por isso que prometo amar você para sempre e abrir mão desde já dessas dezenas de oportunidades conjugais que surgirão em meu futuro. Não quero ficar morrendo de ciúme cada vez que você conversar com um homem sensual nem ficar preocupado com o futuro de nosso relacionamento. Nem você vai querer ficar preocupada cada vez que eu conversar com uma mulher provocante. Prometo amar você para sempre, para que possamos nos casar e viver em harmonia". Homens e mulheres que conheceram alguém "melhor" e acham agora que cometeram enorme erro quando se casaram com o atual cônjuge esqueceram a premissa básica e o espírito do contrato de casamento.
O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre. Um dia vocês terão filhos e ao colocá-los na cama dirão a mesma frase: que irão amá-los para sempre. Não conheço pais que pensam em trocar os filhos pelos filhos mais comportados do vizinho. Não conheço filho que aceite, de início, a separação dos pais e, quando estes se separam, não sonhe com a reconciliação da família. Nem conheço filho que queira trocar os pais por outros "melhores". Eles aprendem a conviver com os pais que têm.

Casamento é o compromisso de aprender a resolver as brigas e as rusgas do dia-a-dia de forma construtiva, o que muitos casais não aprendem, e alguns nem tentam aprender. Obviamente, se sua esposa se transformou numa megera ou seu marido num monstro, ou se fizeram propaganda enganosa, a situação muda, e num próximo artigo falarei sobre esse assunto. Para aqueles que querem ter vantagem em tudo na vida, talvez a saída seja postergar o casamento até os 80 anos. Aí, você terá certeza de tudo.

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Publicado na revista Veja, do dia 29 de Setembro de 2004 e disponível no site do autor: www.kanitz.com

terça-feira, julho 10, 2007

Neve em Buenos Aires

Nevou ontem em Buenos Aires. Faz 90 anos que isso não acontecia na cidade. Pena que estava aqui no Rio de Janeiro. Como prêmio de consolação, posso dizer que assisti à maior chuva de granizo da minha vida na cidade, ano passado. Adoraria disponibilizar o vídeo que mandaram para mim da neve caindo na esquina das ruas San Juan e Boedo, mas como não sou expert em computador, ainda não aprendi a utilizar essa ferramenta. Fica para uma próxima oportunidade. Não é incrível ter nevado em Buenos Aires?
um abraço ao leitor.

domingo, julho 08, 2007

Burrice nacional


Tentei alfabetizar as crianças brasileiras, não consegui. Tentei salvar os índios, não consegui. Tentei fazer uma universidade séria e fracassei. Tentei fazer o Brasil desenvolver-se autonomamente e fracassei. Mas os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu.

Darcy Ribeiro.

Segundo Darcy Ribeiro, as crianças brasilerias são analfabetas, os índios não foram salvos, a universidade brasileria não é séria e o Brasil não se desenvolveu autonomamente. A presente dissertação pretende discutir o primeiro e terceiro argumentos; em relação ao segundo e quarto, far-se-ão apenas observações, pois o autor do texto não tem uma visão geral do assunto.

Noventa e cinco por cento das crianças brasileiras estão nas escolas, para gáudio de burocratas. Mas as crianças realmente sabem ler, ou apenas escrevem seus nomes no papel? Recentemente, competição internacional envolvendo estudantes de vários países colocou os brasileiros entre os últimos lugares. Ano passado, pesquisa apontou que quinze por cento dos universitários do Rio de Janeiro jamais leram um livro não didático. Nos dados oficiais, consta baixo número de crianças analfabetas. Porém, quantas das crianças alfabetizadas segundo o governo passariam em um teste sério de compreensão de texto, que não apontasse seu analfabetismo funcional?

A universidade brasileira, sobretudo a pública, é, com raras exceções, um antro de esquerdismo militante. Os estudantes da Idade Média que criaram a universidade com o propósito de adquirir conhecimento devem corar de vergonha ao ver que no Brasil sua idéia foi transformada em centro de propagação de ideologia de massa. Com exceção dos cursos profissionalizantes, os quais, por sua própria natureza, não têm o condão de enriquecer a cultura, a universidade brasileira não é séria.

Salvas ou não, muitas tribos indígenas conseguiram demarcar reservas e exploram as riquezas minerais aí presentes.

Venceu o Brasil a burrice coletiva. Nelson Rodrigues já nos anos 70 dizia que os burros, antes tímidos e calados, ameaçavam ocupar o centro da cena intelectual, numa revolta da burrice. Trinta anos depois a profecia do dramaturgo jornalista se concretizou. O Brasil é governado por um homem absolutamente incapaz, que disse a seguinte frase, epítome do orgulho da burrice, e uma burrice em si: "Minha mãe nasceu analfabeta." Terá chegado o fundo do poço apontado por Darcy Ribeiro ou devemos esperar porque o buraco é mais embaixo?