Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador filosofia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, novembro 15, 2013

Natureza do dinheiro -- parte 3

Imagine-se um ponto circundado pelos mais variados bens comercializados.

Como o crédito é um direito a um bem definido, representamo-lo como um segmento de reta ligando o centro a um dos bens na circunferência.

Uma vez executado, o crédito desaparece.

O dinheiro, no entanto, é um direito a um bem por determinar. Ele deve ser representado pelo ponto, o ente que tem todas as dimensões e nenhuma extensão. O dinheiro é o direito de aquisição de um bem indeterminado, mas determinável, à venda. Igualmente, o ponto não tem qualquer determinação, mas é o fulcro de todas elas.

Efetuado o contrato de compra-e-venda, o proprietário do dinheiro abre mão de sua possibilidade indefinida em favor do bem escolhido.

Dentre as dimensões possíveis, realizou-se a que o liga ao bem escolhido.

O dinheiro, uma vez usado, apenas troca de mãos.


Não apenas a moeda deve ser divisível, o dinheiro o é necessariamente. O conjunto de todo o dinheiro, a reunião dos direitos de aquisição de bens indeterminados, equivale ao direito de aquisição de todos os bens à venda.

A soma de todos os dinheiros, portanto, equivale ao direito de aquisição de todos os bens, da mesma maneira que a aposta lotérica em todas as combinações de números possíveis equivale à certeza do recebimento do prêmio.* 

Uma fração do todo de dinheiro, porém, é o que tem cada pessoa que tenha dinheiro; trata-se do direito de aquisição de um bem indeterminado. Mas esse bem indeterminado não é qualquer bem dentre os bens à venda.

Segundo a fração que uma pessoa tem em relação ao todo de dinheiro, ela poderá adquirir um ou mais bens dentro de um conjunto inserido no universo total de bens à venda.

Explica-se: um pedinte que economizou cem reais em duas semanas tem o direito de aquisição, por exemplo, de um celular, mas não de um carro. Ele pode comprar um celular, mas não dois, pode comprar, ao invés de um celular, uma lixeira metálica, uma toalha, camisa e ainda sobra para almoçar.

Com a fração do todo de dinheiro documentada em cem reais ele pode comprar celular, lixeira metálica, toalha, camisa e almoço; com cem reais ele tem um raio de escolha que chega ao celular.


Mas ele não poderá comprar o celular mais a lixeira mais a toalha. Dentro desse conjunto restrito de bens, poderá escolher entre algumas combinações, não entre todas.

Quem tem uma fração maior em relação ao todo de dinheiro, tem um raio de escolha de bens à venda maior.


*Ou numa rifa com prêmios pequenos para cada um dos participantes, alguém que compre todos os bilhetes teria a certeza de receber todos os brindes sorteados.

terça-feira, outubro 22, 2013

Natureza do dinheiro -- parte 2

Definição: a moeda é o documento do dinheiro, que é o direito de aquisição de um bem indeterminado comercializado.

Lei: aumentar a quantidade de moeda não aumenta a quantidade de dinheiro.

A pessoa que, além de assinar um contrato de trabalho, ainda tem o carimbo na sua carteira, tem dois documentos do direito de receber pelo serviço que presta a seu empregador. Ela tem dois documentos de um mesmo direito, isto é, tem dois comprovantes de um mesmo contrato, não de dois. Tampouco irá trabalhar duas vezes, recebendo o dobro do estabelecido em um contrato.

Aumentar a quantidade de moeda não aumenta a quantidade de dinheiro, embora possa parecer aumentá-lo. A quantidade de bem compráveis continuará a mesma diminua ou aumente a quantidade de moeda. Não faz sentido uma nação aumentar a quantidade de moeda para ficar mais rica. A moeda é apenas a medida relativa pela qual se troca um bem atual pela faculdade de compra de um futuro. Uma nação que tenha muitíssimo ouro no seu tesouro mas cuja produção global seja mais baixa em relação a outra com menos ouro enganar-se-á caso se considere mais rica. Considerando que ambas as nações se ignoram comercialmente, uma pouca quantidade de ouro na segunda compra muito mais bens que na primeira nação.

Não faz sentido, portanto, uma nação aumentar sua quantidade de moeda para ficar mais rica. Mas para o emissor da moeda faz. Porque ele comprará bens pelo seu preço atual, antes que as pessoas percebam a maior quantidade de moeda em circulação e reajustem seu preço. Ele comprará mais para que os últimos a receberem a moeda que emitiu comprem menos. Se é o governo quem emite moeda, aumentar sua quantidade em circulação é nada mais nada menos do que cobrar um tributo, que as pessoas costumam chamar de imposto inflacionário.

Geralmente, a moeda tem um valor de uso desprezível. Isso vale para o ouro, como demonstra a fábula trágica de Midas, o papel-moeda ou o número escriturado em sua conta bancária. Mas por que, dentre essas três, o ouro é o material da moeda mais confiável? Porque é o que opõe mais resistência ao aumento de sua circulação. A quantidade de ouro em circulação no mundo não pode aumentar de uma hora para a outra. No mínimo, seria preciso extraí-lo de uma mina por explorar. Imprimir papel-moeda é mais fácil, escrever um número na conta bancária mais fácil ainda. O ouro obriga o emissor de moeda a engolir em seco seu desejo de aumentar a quantidade em circulação.

......

Dinheiro é a riqueza de que se abre mão para se obter um meio de troca, fungível porque portável e durável. É o crédito impagável que o comerciante assume para poder trocar mais facilmente seus bens. É o acordo entre as castas militar-política e empresarial.

Uma diferença do crédito para o dinheiro é que aquele só pode ser cobrado de quem o emitiu, esse pode ser oposto a qualquer comerciante.



Atualização de 01/08/2014: Dinheiro é o desejo, a desejabilidade que um bem inspira na medida em que é usado como troca por outro bem.

É da essência do dinheiro se manifestar num bem, sem se confundir com ele.

Quando é usado como moeda de troca, um bem se dinheiriza, isto é, assume essa qualidade.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Natureza do dinheiro

Na obra Anotações, disse, como questão preliminar necessária ao esclarecimento do que fosse um contrato, que o dinheiro é um direito de aquisição de um bem a ser determinado.

Mas a todo direito corresponde um dever. De quem é o dever de pagar por esse bem? Naturalmente, de quem criou o dinheiro. Como o dinheiro é usado para comprar bens, quem primeiro o emitiu e o usou para adquirir um bem, deve, em última instância, ser responsável por dar algo em troca desse bem.

O dinheiro, portanto, é uma dívida; uma dívida de quem o emite e o usa. O governo dispunha-se a pagar sua dívida em ouro, mas hoje não o faz mais. O governo não pode falir, embora ele tenha dívidas, não pode falir como uma empresa.

Quem emite o dinheiro tem, por definição, o poder de fazê-lo ser aceito. Esse poder, portanto, implica a obrigação de outro de aceitá-lo. Mas essa obrigação pode se tornar meramente nominal se não for sustentada pela confiança de que o dinheiro será repassado com benefício. Desmoralizar o dinheiro significa não querer aceitá-lo.*

Então, o dinheiro surge de uma estranha situação em que seu emissor obriga o receptor a um crédito que jamais lhe pagará. Mas o receptor, por sua vez, passa a ter o direito de comprar de outrem; e assim vai.

Atualização de 31/07/2014: A não ser que Abraão dê um real para cada gado de tributo que cobrou em determinado exercício, dizendo que no exercício seguinte só aceitará como pagamento de tributo reais. E assim faz, cobrando um décimo de cada real que deu.

(continua)

Será mesmo, no entanto, que esse direito, o dinheiro, ao contrário de todos os direitos, não tem a contrapartida de um dever? Não exatamente. O dever do governo é pago não a quem detém singularmente o dinheiro, mas ao grupo de pessoas que governa, coordenando suas atividades. Bem ou mal, e sem direito a apelação, o governo paga sua dívida assim, isto é, governando aqueles a quem governa.


*Caso o dinheiro fosse emitido por uma organização não monopolista, isto é, que não o Estado, a obrigação de aceitá-lo não existiria. Nessa situação o dinheiro seria aceito tão apenas por ter convencido seu receptor de ser o que é, ou seja, um meio de troca largamente aceito, e não apenas o material, ouro, papel, etc, onde se o inscreveu.

Nesse caso, o dinheiro só se confirma como direito quando é aceito, antes disso ele é uma expectativa de direito.

sexta-feira, abril 19, 2013

Autores mortos e perfeição

Não me parece a melhor maneira de estudar um autor, ou o assunto que ele propõe, considerando-o "morto". Salvo se ele for repressivo, intimidativo, então matá-lo é  uma defesa compreensível, sente-se mais livre para trabalhar em cima do que ele disse sem querer adaptar-se a seu pensamento. Mas sua vozinha poderá vir puxar a perna do inconsciente à noite, "olha, eu não penso isso, você está achando errado", bom mesmo é considerá-lo vivo, mesmo que seja para brigar ou manter-lhe distância, melhor se for alguém livre e disposto a ver novas possibilidades, com quem conversar, saber o que vai achar, isso tudo tem que ser imaginado a partir do que registrou, intuir-se o que ele acharia, trocar idéias com ele. Não que seja preciso concordar com ele, crescer com ele é que é bom. Sócrates nunca escreveu nada, mas os homens vêm dialogando consigo há mais de dois milênios. Sócrates é uma inspiração de busca da sabedoria, é um autor vivíssimo por causa disso, não fechou num sistema autoritário, ou você está comigo ou contra mim, seu pensamento, ao contrário, deu o impulso inicial, incentivou outros a que praticassem o que fazia, a busca de sabedoria. Enquanto busca, a sabedoria não pode ser capturada. Nem os valores, aliás, que são ideais. Eles são infinitos, nunca se os realiza por completo, daí porque o Livro de Urântia fala em perfeição de propósitos, ou seja, perfeição da busca e do quê buscar, do ato mesmo de querer os valores. A perfeição não seria portanto um estado. Seria uma busca eterna, não uma busca à toa, de algo que nunca se vai achar, mas algo que se revela sempre mais, o lado claro da lua anunciando que o escuro também está lá. Essa busca tem uma peculiaridade: Quanto mais se descobriu, mais se sabe que há algo por descobrir, os lados claro e escuro avançando concomitantemente.

terça-feira, outubro 23, 2012

Anotações

Acabo de publicar a obra Anotações, que é continuação de minha monografia de faculdade. O mote começa ainda pelo direito, como no trabalho anterior, mas amplia-se para tratar da sociedade, da história, revelações, etc. Agradeço que leiam. Novamente, dúvidas, sugestões, correções (que las hay, las hay) são sempre bem-vindas. Escrevam-me no e-mail: daniel.lourenco@oi.com.br.

terça-feira, abril 10, 2012

Amizade

I kept wondering up to this day
how to make others their reasons sway,
But now I must say: It is a treason
to impose upon others your own way.

Then, now, my friend, I wish you to think
what you think, because we are two links
to God, if so, if not, unity in Him sole.

Amizade não tem nada que ver com compartilhamento de objetivos, como queria Aristóteles. Ao contrário, tem que ver com a indiferença para com as opiniões do amigo, não importa o que ele pensa, seja diferente, seja semelhante, o amigo respeita sua autonomia. Querer concordar com o amigo é um elemento utilitário na amizade.

A proximidade de objetivos, claro, aproxima pessoas e gera empatia. Mas não sustenta, sozinha, uma amizade. É preciso querer que o amigo tenha as suas idéias, não as nossas.

Vou traduzir um texto de Simone Weil sobre amizade. Não tenho o original em francês, por isso traduzirei da versão inglesa.

"Existe no entanto um amor pessoal e humano que é puro e que conserva uma insinuação e uma reflexão do amor divino.  Esse amor é a amizade, desde que nos atenhamos estritamente ao verdadeiro significado da palavra.

Preferência por um ser humano é necessariamente algo diferente de caridade. A caridade não discrimina. Se a encontramos de maneira mais abundante em determinado local, é porque a aflição deu ensejo para propiciar ali uma ocasião de troca de compaixão e gratidão. Está igualmente disponível para toda humanidade, uma vez que a aflição pode atingir a todos, oferecendo a eles uma oportunidade para essa troca.

Preferência por um ser humano pode ser de dois tipos. Ou estamos procurando algum bem particular nele, ou precisamos dele. De uma maneira geral, todas as conexões se enquadram em um desses dois. Nós nos dirigimos a algo, ou porque há um bem dele que queremos, ou porque não podemos viver sem ele. Algumas vezes os dois motivos coincidem. Com freqüência, porém, não. Cada um é distinto e bem independente. Nós comemos alimentos de que não gostamos, se não temos nada mais, porque não podemos agir de outro modo. Um homem razoavelmente avaro busca acepipes, finuras, mas pode facilmente viver sem eles. Se não temos ar, sufocamos; lutamos para conseguí-lo, não porque esperamos obter alguma vantagem dele mas porque precisamos dele. Vamos em busca do ar marinho sem sermos levados por qualquer necessidade, porque gostamos. Com freqüência, acontece automaticamente de o segundo motivo tomar o lugar do primeiro. Essa é uma das principais infelicidades de nossa espécie. O homem fuma ópio para alcançar uma condição especial que considera superior; com freqüencia, com o passar do tempo, o ópio o reduz a uma condição miserável que ele considera degradante, com o qual porém não consegue mais deixar de viver. Arnolfo comprou Agnes de sua mãe adotiva, porque lhe parecia seria uma vantagem ter consigo uma menina, uma menina que tornaria gradualmente numa boa esposa. Mais tarde ela só lhe causou um tormento lacerante e degradante. Mas com a passagem do tempo sua ligação a ela tornou-se um elo vital, que o forçou às seguintes palavras saídas de seus lábios:

"Mas sinto em tudo isso que serei ferido."

Harpagon começou achando que o ouro era uma vantagem. Mais tarde, ele se tornou nada mais do que o objeto de um encosto obsessivo, não obstante um objeto cuja perda causaria sua morte. Como diz Platão,  há uma grande diferença entre as essências do Necessário e do Bom.

Não há contradição alguma entre buscar nosso próprio bem num ser humano e desejar que seu bem aumente. Por esta mesma razão, quando o motivo que nos impele para junto de alguém é apenas uma vantagem para nós mesmos, as condições da amizade não são realizadas. A amizade é uma harmonia sobrenatural, uma união de opostos.

Quando um ser humano é em algum grau necessário para nós, não podemos desejar o seu bem salvo se paramos de desejar o nosso próprio. Onde há necessidade há constrangimento e dominação. Nós temos o poder sobre aquilo de que precisamos, a não ser que o possuamos. O bem central de todo homem é dispor de si livremente. Ou o renunciamos, o que é um crime de idolatria, uma vez que só pode ser renunciado em favor de Deus, ou desejamos que o ser de que necessitamos seja privado da livre disposição de si próprio.

Qualquer tipo de mecanismo pode unir seres humanos com laços de afeição que têm a férrea dureza da necessidade. O amor materno é sempre deste tipo; igualmente também o é o paterno às vezes, como em Père Goriot de Balzac; igualmente o é o amor carnal na sua forma mais intensa, como em L'Ecole des Femmes e em Phèdre; igualmente, com muita freqüência, o é o amor entre marido e mulher, principalmente por conta do hábito. Os amores filial e fraterno mais raramente serão desta natureza.

Há ainda grau de necessidade. Qualquer coisa é necessária em algum grau se sua perda implica uma diminuição de energia vital. (Esta palavra é usada aqui com o sentido preciso e estrito que deve ter se o estudo do fenômeno vital estiver tão avançado quanto o de corpos que caem.) Quando o grau de necessidade é extremo, a privação leva à morte. Este é o caso quando quando toda a energia vital de um ser está intimamente associada com outro por alguma conexão. Nos graus menores, a privação leva a uma diminuição mais ou menos considerável. Assim uma total privação de comida leva à morte, enquanto uma privação parcial apenas diminui a força vital. Não obstante, a quantidade necessária de comida é considerada aquela necessária para que uma pessoa não fique fraca.

A causa mais freqüente de necessidade nas ligações de afeto é uma combinação de simpatia e hábito. Como no caso da avareza ou da compulsão por bebida, aquilo que de início foi uma busca por um bem desejado transforma-se numa necessidade com a passagem do tempo. A diferença da avareza, compulsão por bebida, e qualquer vício, no entanto, é que nas ligações de afeto os dois motivos -- busca por um bem desejado e necessidade -- podem muito bem coexistir. Eles podem também estar separados. Quando a conexão de um ser para com outro baseia-se na necessidade e nada mais, ela é algo assustador. Poucas coisas no mundo podem atingir um tal grau de feiúra e horror. Sempre há algo horrível quando um ser humano procura o que é bom é só encontra necessidade. As histórias que contam de um ser amado que de uma hora para outra aparece com uma cabeça de morte simbolizam melhor isso. A alma humana possui um arsenal de mentiras com o qual estatui uma defesa contra esta feiúra, e, em imaginação, cria vantagens falsas onde só há necessidade. É por essa mesma razão que a feiúra é um mal, porque conduz à mentira.

Falando de maneira geral, podemos existir que a aflição está presente onde quer que a necessidade, sob a forma que seja, é imposta de maneira tão drástica que a dureza excede a capacidade de mentir da  pessoa que recebe o impacto. É por essa razão que as almas mais puras são as mais expostas à aflição. Para quem é capaz de prevenir a reação automática de defesa, que aumenta a capacidade da alma de mentir, a aflição não é um mal, não obstante sempre machuque e em certo sentido seja uma degradação.

Quando um ser humano está conectado com outro por uma ligação de afeição que contém algum grau de necessidade, é impossível pretendermos que a autonomia seja preservada tanto em si mesmo quanto no outro. É impossível devido ao mecanismo da natureza. No entanto, torna-se possível pela intervenção miraculosa do sobrenatural. Este milagre é a amizade.

"A amizade é uma igualdade feita de harmonia", disseram os pitagóricos. Existe harmonia porque há uma união sobrenatural entre dois opostos, quais sejam, necessidade e liberdade, os dois opostos que Deus combinou quando criou o mundo e os homens. Existe igualdade porque cad aum deseja preservar a faculdade de livre consentimento tanto em si quanto no outro.

Quando alguém deseja colocar-se sob o domínio de um ser humano ou consente em subordinar-se a ele, não há traço de amizade. Pilades de Racine não é amigo de Orestes. Não há amizade onde há desigualdade.

Uma certa reciprocidade é essencial na amizade. Se a boa vontade falta integralmente em um dos dois lados, o outro deveria suprimir sua própria afeição, em respeito ao livre consentimento que ele não deveria desejar forçar. Se em um dos dois lados, não há respeito pela autonomia do outro, este outro deve cortar essa ligação em respeito a si mesmo. Da mesma maneira, aquele que consente em ser escravo não pode ganhar a amizade. Mas a necessidade contida na ligação de afeto pode existir em um lado apenas, e neste caso só há amizade de um lado, se nos ativermos ao significado estrito e exato da palavra.

Uma amizade enferruja tão logo a necessidade triunfe, ainda que por um momento apenas, sobre o desejo de preservar a faculdade do livre consentimento em ambos os lados. Em todas os assuntos humanos, a necessidade é o princípio da impureza. Qualquer amizade é impura se um mero traço do desejo de agradar ou o desejo contrário de dominar está presente nela. Numa amizade perfeita estes dois desejos estão totalmente ausentes. Os dois amigos consentiram em ser dois e não um, eles respeitam a distância que o fato de serem duas criaturas distintas coloca entre eles. O homem tem o direito de desejar união direta apenas com Deus.

A amizade é um milagre pelo qual uma pessoa consente em ver de uma certa distância, e sem chegar mais perto, o ser mesmo que lhe é necessário como a comida. Requer a força de alma que Eva não teve; e não obstante ela não tinha necessidade do fruto. Se estivesse com fome no momento em que olhou para a fruta, e se a despeito disso ficasse olhando para ela indefinidamente, sem dar um passo em sua direção, teria praticado um milagre análogo ao da amizade perfeita.

Através desse milagre sobrenatural de respeito pela autonomia humana, a amizade se parece muito com as formas puras de compaixão e gratidão por que a aflição clama. Em ambos os casos, os termos contrários da harmonia são a necessidade e a liberdade, ou em outras palavras subordinação e igualdade. Estes dois pares de opostos são equivalentes.

Uma vez que o desejo de agradar e o desejo de comandar não estão presentes na amizade pura, ela tem em si, ao mesmo tempo que a afeição, algo que não difere muito de uma completa indiferença. Embora seja uma ligação entre duas pessoas, num certo sentido é impessoal. Deixa intacta a impessoalidade. De modo algum nos impede de imitar a perfeição de nosso Pai no paraíso, que distribui livremente a luz do sol e a chuva por todo canto. Ao contrário, a amizade e essa distribuição são as condições mútuas uma da outra, em muitos casos em qualquer grau. Porque, como praticamente todo ser humano está unido a outros por ligações de afeto que guardam em si algum grau de necessidade, ele não pode caminhar rumo à perfeição exceto se transformar essa afeição em amizade. A amizade tem algo de universal. Consiste em amar um ser humano como gostaríamos de amar cada alma em particular de todas que formam a espécie humana. Da mesma maneira que um geômetra olha uma figura determinada para deduzir as propriedades universais do triângulo, aquele que sabe como amar dirige a um ser humano em particular um amor universal. Tão logo desejamos que essa autonomia seja respeitada em mais do que um ser humano desejamos para todos, pois deixamos arrumar a ordem do mundo num círculo cujo centro é aqui embaixo. Transportamos o centro do círculo para além dos paraísos.

A amizade não tem esse poder se os dois seres que se amam, por meio de um uso ilegal da afeição, pensam que formam um apenas. Então não haverá amizade no verdadeiro sentido da palavra. Isso é o que se pode chamar de uma união adúltera, ainda que se dê entre o marido e a mulher. Não há amizade se a distância não é mantida e preservada.

O mero fato de ter prazer em pensar da mesma maneira que o ser amado, ou em todo caso o fato de desejar essa concordância de opinião, ataca a pureza da amizade ao mesmo tempo que sua integridade intelectual. É bem freqüente. E ao mesmo tempo a amizade pura é rara.

Quando as ligações de afeição e necessidade entre seres humanos não são transformadas sobrenaturalmente em amizade, não apenas a afeição é de uma ordem impura e baixa, mas também estará misturada com o ódio e a repulsão. Isso é mostrado muito bem em L'Ecole des Femmes e em Phèdre. O mecanismo é o mesmo em afeições outras que o amor carnal. É fácil entender isto. Nós odiamos aquilo de que dependemos. Nós sentimos aversão por aquilo que depende de nós. Algumas vezes a afeição não apenas se mistura com o ódio e a repulsão; ela se transmuda inteiramente neles. A transformação pode mesmo ser imediata algumas vezes, de modo que qualquer afeição mal consegue se mostrar; este é o caso quando a necessidade é revelada logo de cara. Quando a necessidade que aproxima pessoas não tem nada que ver com emoções, quando se deve apenas a circunstâncias, a hostilidade normalmente mostra suas garras desde o início.

Quando Cristo disse a seus discípulos: "Amem-se uns aos outros", não era a conexão (attachment) que ele revelava como regra. Já que era um fato que havia ligações entre eles devido aos pensamentos, à vida, e aos hábitos que compartilhavam, ele incitou-os a transformar essas ligações em amizade, de modo que não lhes fosse permitido torná-la uma conexão impura ou ódio.

Uma vez que, pouco antes de morrer, Cristo deu esse novo mandamento em adição aos dois grandes mandamentos de amor pelo próximo e do amor por Deus, podemos considerar que a amizade, como o amor pelo próximo, tem algo de sacramental. Cristo talvez quisesse sugerir isso em referência à amizade cristã quando disse: "Quando há dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei eu presente." A amizade pura é uma imagem da amizade original e perfeita que pertence à Trindade e é a essência mesma de Deus. É impossível que dois seres humanos sejam um enquanto respeitam a distância que os separa, a não ser que Deus esteja presente em cada um deles. O ponto em que os paralelos se encontram é o infinito."
......

Completo eu, a amizade guarda a distância de respeitar, e mais que respeitar, querer que o outro tenha suas opiniões, mas, além disso, e já resvalando para o que se chama mais propriamente de amor, o amigo quer ver com seus olhos, compartilhar -- embora sem curiosidade, que pode acionar seu mecanismo de defesa --de seus motivos íntimos, entendê-lo, amá-lo.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Que é a dúvida? - II

Dúvida é a alternância entre duas ou mais opções de ação, as quais não têm atratividade o bastante para que por uma delas se decida finalmente.

Que é a dúvida?

"A dúvida é uma espécie de pensamento que varia por ambas as alternativas [de um dilema], de maneira que se pensa 'Isto talvez seja assim; talvez não seja assim.'" (Yoga-Bhashya, tradução minha da tradução de James Haughton Woods)

quarta-feira, julho 27, 2011

Diferença entre duvidar, suspeitar, opinar, crer e inteligir

por Tomás de Aquino

"Chama-se propriamente cogitação ao movimento da alma que delibera, ainda não tornado perfeito pela plena visão da verdade.
(...)
"Pois, certos dos atos pertinentes ao intelecto implicam um firme assentimento, sem a tal cogitação. (...) Outros atos do intelecto, porém, são sem firme assentimento. Quer por não penderem para nenhuma parte, como se dá com quem duvida; quer, por penderem mais para uma parte, mas dependerem de algum leve sinal, como sucede com quem suspeita; quer, por aderirem a uma parte, mas com temor de que a outra seja a verdadeira, como acontece com quem opina. Ora, o ato de crer implica a adesão firme a uma das partes. Por aí, o crente convém com o que sabe e intelige. E, contudo, o seu conhecimento não é perfeito, pela visão manifesta; por onde, convém com o de quem duvida, suspeita e opina. E, assim, é próprio de quem crê cogitar com assentimento. E por isso, o ato de crer distingue-se de todos os atos do intelecto, relativos à verdade e à falsidade."

(Secunda secundae, questão 2, artigo 1)

segunda-feira, julho 25, 2011

Ódio ou serviço

Lúcifer e Satã só se aturam enquanto envolvidos na unidade de ódio contra o Filho Criador. A liberdade desenfreda que pregam deve valer também em face do atual colega de rebelião. No momento as disputas podem não se manifestar, mas tão logo o inimigo comum e maior seja vencido, nutrir-se-á o desejo de supremacia do indivíduo absoluto. No retrato budista da Roda da Vida, figuram no círculo interno os três venenos do homem, representados por um porco, um pássaro e uma cobra, cada um mordendo o rabo do outro. Ou seja, eles opõem-se juntos ao homem, mas nem por isso são amigos. Cedo ou tarde, seu ódio recíproco revelar-se-á.

Não deve espantar, portanto, que em todos os países que fizeram uma revolução, seja na Rússia, França, Alemanha, Cuba ou China, os colegas revolucionários começaram a perseguir-se e matar-se uns aos outros assim que a vitória estava assegurada. Os expurgos cedo ou tarde acontecem.

O ódio a alguém -- não ao pecado, claro -- tem essa peculiar característica de vir acompanhado do ódio a si mesmo.

A bondade caracteriza-se por viver e aceitar com um grau maior ou menor de silêncio injustiças que se lhe praticam. Na realidade, não importa se você é mau ou bom, dirá Shinran, importa se você recita o Nembutsu, o que equivale a dedicar-se aos assuntos do Pai. Dedicar-se aos assuntos do Pai significa desenvolver uma vida interior a par da exterior, e isto implica dotar nossas atitudes e palavras com as experiências genuínas e significativas, afastando as falsas, as quais alimentam a língua perniciosa. A iniquidade, ao revés, ao primeiro sinal de que sofre uma injustiça real ou imaginária, tentará alardeá-la aos quatro cantos do mundo, repisando-a continuamente e figurando-se como a injustiçada, dona de uma autoridade moral contra o mundo ruim que um Pai bondoso inventado jamais criou. O movimento revolucionário, porque é mais dado a afetação, tem e sempre terá essa vantagem sobre o movimento evolucionário, qual seja, fazer mais propaganda sobre as injustiças que sofre.

Como organizar o movimento evolucionário, portanto?

quinta-feira, julho 07, 2011

Conhecimento em Platão

"(...) a admiração é a verdadeira característica do filósofo."

À pergunta de Sócrates sobre o que seja o conhecimento, Teeteto lhe responde enumerando alguns, geometria, a arte dos sapateiros, etc. Mas Sócrates não quer saber de exemplos, quer saber o quid est da coisa.

Ele compara o processo de conhecimento, no caso de conhecimento sobre o conhecimento, com as dores do parto. "Algo em tua alma deseja vir à luz." Nenhum crescimento espiritual se dará sem alguma luta interior. Assim como com a virtude, o conhecimento é uma graça da divindade, que ele, Sócrates, tentará, como faz a parteira, de Teeteto parir.

A noção do conhecimento nascendo de um trabalho de parto remete-nos ao terceiro hexagrama do I Ching, cujo nome é Zhung, que representa a dificuldade inicial quando os princípios criativo, T'hien, e receptivo, K'un, se encontram para dar a graça a um novo ente.

Que os discursos baseados na verossimilhança ou na probabilidade não encerram o máximo de certeza alcançável Platão esclarece a contento, partindo em seguida para a demonstração do primeiro erro que o estudante iniciante de filosofia deve ser capaz de decifrar. Ele dá pistas aqui da sua divisão quatripartite do conhecimento, explicada no livro VI do diálogo A República. Antes, no livro V, ele o divide em três. A ciência ou conhecimento propriamente dito corresponde ao ser, ou seja, ao belo ou a justiça em si, para além da multiplicidade de entes belos que existem. De outro lado, a ignorância, ou o não-ser, significa a falta de qualquer conhecimento. Condição intermediária entre ambos, a opinião refere-se a entes relativos, que se graduam na multiplicidade da existência segundo graus de mais e de menos, como um ente pode ser mais ou menos belo, mas não corresponde ao belo em si, o qual escapa à mera opinião, e qualifica quem o contempla como filósofo.

Platão nos diz que a idéia do bem é o princípio da ciência e da verdade, e, como tal, muito mais preciosa que essas. Ele a compara ao sol que derrama sua luz sobre o ente conhecível e seu conhecedor, unindo-os em admiração. Mas Platão diz que o sol é o filho do bem. Sobre o bem em si ele prefere não discorrer naquele momento, tanto por sua incapacidade de apresentá-lo, porque não o divisasse com clareza ainda, quanto pela incapacidade de seus interlocutores de percebê-lo. Moisés sabe bem o que é não poder contar verdades que os interlocutores não poderão entender. Mas alguns autores, como Gomperz, secundado pela escola de Tübingen, acreditam que Platão tenha feito um discurso sobre o bem, o qual, se foi embora transcrito, não chegou até nós. Nele, Platão teria explicitado o pináculo de sua filosofia, que é o bem, o UM, princípio de todos os sub-princípios, aquele que se basta a si, mas também inicia a multiplicidade através de seu contra-princípio, a Díade ilimitada, que erra entre o mais e o menos até que o UM a meça. A Díade passeia horizontalmente por um mesmo reino da existência (o dos animais irracionais, por exemplo) até que o UM a determine em vários pontos, criando os múltiplos seres daquele reino; ela também varia hierarquicamente no plano vertical, de modo que o UM possa diferenciar graus diferentes de perfeição.

Difícil até aqui, não? Perdoem-me, mas não acabou. O Um sintetiza ainda as experiências de valor dos múltiplos seres, ele é o infinito qualitativo (o quantitativo é apenas potencial, porque qualquer contagem indefinida de números não acaba nunca, será sempre incompleta).

Respirem e sigamos. Platão divide então em quatro as faculdade de conhecer: a imaginativa e a faculdade de crer, embaixo, e acima, o pensamento e a intuição intelectual. Às duas primeiras correspondem as imagens refletidas em espelho, que não são a coisa em si, e os entes sensíveis, a coisa em si; às segundas os entes de razão -- ou entes matemáticos -- e os princípios, arkhai. Por que Platão não coloca no mesmo patamar o conhecimento matemático e o dos princípios? Porque a matemática refere-se justamente a entes de razão, modelos inexistentes no mundo sensível, que podem no entanto ajudar em sua compreensão, mas também podem prejudicá-la, caso se os pretenda suficientes. Um sistema matemático dedutivo pode, no máximo, ser probabilíssimo, nunca cem por cento, uma vez que parte de axiomas, os quais são por definição indemonstráveis. O que Platão chama de pensamento e que, podemos aduzir, assemelha-se ao que se chamou de razão ao longo do século XIX, corre o risco de auto-contradizer-se quando se esquece de que existe necessariamente uma realidade fora do sistema formal.

Platão não disse, mas essa realidade é o infinito (o UM). Não existisse o ilimitado, isto é, aquilo que não pode ser capturado num círculo explicativo formal, o universo inteirinho seria auto-contraditório - e fisicamente implodiria devido à entropia.

Ou é assim ou é o nada. Como "alguma coisa há" (não é verdade Mário Ferreira dos Santos?), então não pode não ser assim.

Os números conforme os entendiam os pitagóricos, diga-se entretanto, não são meros entes de razão, são os esquemas no ser próprio de cada coisa. O homem, por exemplo, tem um número que lhe dá o ser homem, já o UM, embora com esse nome, não é bem um número, mas o princípio primordial que dará o ser de cada coisa, inclusive o do homem, com todos os números possíveis que em seu bojo encerra. Os princípios são as razões últimas e os números as razões próximas das coisas. Numa escala ascendente, portanto, o pensamento nos entes de razão deveria ceder à intuição das idéias -- os números pitagóricos -- e dos princípios mesmos. E como vértice dessa pirâmide, para além do conhecimento apenas, a sabedoria, isto é, a busca por fazer o bem.

(http://www.urutagua.uem.br//006/06coelho.htm)


É razoável supor que esta estrutura seria depois assumida por Aristóteles para sua teoria implícita dos quatro discursos -- poético, retórico, dialético e lógico -- que Olavo de Carvalho descobriu.

Conhecimento não é sensação meramente, ou seja, conhecimento não é apenas a sensação que a coisa conhecida causa em mim, se assim fosse ninguém pagaria tanto dinheiro a Protágoras pra ensinar. Quando doente, a maçã me pode ter um gosto amargo, mas, se são, ela me parece doce. Em ambos os momentos quem comeu a maçã fui eu. Por que ela foi sentida de maneira distinta se eu, a medida de todas as coisas, conforme quer Protágoras, sou o mesmo que a comeu? Não só o conhecimento do outro deixa de ser confiável, mas o meu próprio, em outro momento de mim, também. Acontece que o eu é mais do que a soma de sensações a que se submete. "O eu humano não é meramente uma soma de estados sucessivos de consciência. Sem o funcionamento efetivo de uma consciência que seleciona e associa, não existiria unidade suficiente a garantir a sua designação como uma individualidade." (Livro de Urântia) No caso, o fato de eu estar doente faz com que a maçã só consiga se relacionar comigo revelando-se-me amarga. Uma coisa é o relacionamento entre um ente e seu admirador, o aspecto que aquele consegue a esse mostrar, proporcional à sua capacidade de recebê-lo, como Ortega Y Gasset mostra, com o brilho e arrogância que lhe são próprios, em sua doutrina do ponto de vista. É nesse sentido, aliás, que o Livro de Urântia pode dizer que a verdade é relativa. "Quando foi que lhes ensinei que deveriam ver tudo da mesma maneira?", diz Jesus a Tiago.

Outra coisa é dizer que os entes mesmos, e não aspectos seus, diferem de homem para homem. Claro que Protágoras se embanana aqui, seu discurso, como sugere Platão, tinha antes o intuito de "frase para armar efeito." Fosse ciência rigorosa, não poderia ter qualquer valor, uma vez tratar-se de algo que ele próprio diz só caber a ele mesmo. Sim, pois ele aceita "como verdadeira a opinião dos que o contraditam."

Os animais possuem sensações e até uma "coordenação fisiológica entre o reconhecimento e as sensações associadas e a memória correspondente, mas nenhum experimenta um reconhecimento significativo da sensação nem demonstra uma associação propositada dessas experiências físicas combinadas tal como se manifestam nas conclusões das interpretações humanas inteligentes e reflexivas." (Livro de Urântia)

Xavier Zubiri sublinha, deveras, que a sensação humana está no bojo da apreensão do que a coisa é por si mesma. Por exemplo, ao invés de, como o animal, apreender meramente que está quente, o homem apreende que o "calor é quente", e por isso esquenta, ou seja, o homem não apreende o mundo como estímulo apenas, mas como realidade. É o que ele chama de hiperformalização humana. Não se trata de descobrir, não ainda, o 'quid est' da coisa sentida, mas de sentí-la já como uma realidade. Zubiri parece tentar expressar em termos aristotélicos o senso intuitivo de presença da realidade. 

Dizer que a verdade é relativa é dizer que se dá na relação entre o ser vivo e o que conhece. Este projeta (pro + jectar, daí ob + jecto) aspectos seus que só aquele ser vivo pode conhecer. Daí que apenas enquanto participantes dessa relação se pode, a rigor, chamá-los de objeto e sujeito, ou seja, o que informa e o que é informado. O relativismo absoluto abole precisamente a relação proporcionada, de modo que a coisa deixa de ser conhecida, e o conhecedor, falso conhecedor, ocupa-se com uma figura arbitrária contra o vazio de sua recusa de percepção.

Dizer também que a coisa conhecida só consegue projetar alguns aspectos seus, não significa dizer que não se a conheça em si. Posso ver apenas a cabeça de um gato saindo de trás da porta, mas sei que é um gato.

Necessariamente a mesma coisa se mostra de maneiras diferentes para dois seres vivos. Ela se objecta a eles de duas maneiras, os quais, proporcionalmente, assim se sujeitam a ela.

Um mesmo homem pode se sujeitar duas vezes, e portanto de duas maneiras diferentes, à mesma coisa. Claro que ele continua sendo o mesmo homem nessas duas relações, mas as relações serão distintas. O eu continua em meio à mudança de sensações, porque o eu reflete as sensações distintas e as reconhece na idéia da coisa que as emite.

Platão diz-nos ainda que se todas as coisas estão em movimento, tanto de alteração constitutiva quanto de translação espacial, não poderíamos dar-lhes nomes, uma vez que sua identidade escoaria sem cessar. A brancura deixaria de ser, e não a poderíamos designá-la como tal. "Os adeptos de semelhante tese terão que criar uma linguagem nova," diz ele.

A linguagem implica, portanto, alguma estabilidade nos entes. O mero fato de esse texto poder ser compreendido por você, leitor, implica que há permanência nos entes em meio à mudança que atravessam.

A noção do conhecimento como um parto é também ilustrada no diálogo Mênon, quando Sócrates pergunta a um escravo qual a medida dos lados de um quadrado cuja área é de oito pés. Ele, iludido pela consciência de que os lados de um quadrado cuja área é de quatro pés tem dois pés, acredita que basta multiplicar por dois os lados desse quadrado para encontrar um cuja área é de oito. Sócrates faz-lhe perguntas até ele mesmo perceber que a superfície desse quadrado será o quádruplo da superfície do primeiro. Logo o escravo já está se dando conta que o lado deste quadrado deve ter entre dois e quatro pés, e depois que deve ter entre dois e três pés. Ele se surpreende com aquilo que já sabe e aquilo que não sabe.



Sócrates diz a seu colega Mênon: "És capaz de perceber mais uma vez, Mênon, o ponto de rememoração em que já está este menino, fazendo sua caminhada? Percebes que no início não sabia qual era a linha da superfície de oito pés, como tampouco agora ainda sabe. Mas o fato é que então acreditava, pelo menos, que sabia, e respondia de maneira confiante, como quem sabe, e não julgava estar em aporia. Agora porém já julga estar em aporia, e, assim como não sabe, tampouco julga que sabe."

Sócrates acredita que seu método de mostrar a uma pessoa que ela não conhece para valer aquilo que acredita que conhece lhe faz um bem, muito embora a desnorteie como a uma barata tonta num primeiro momento. Pois, diz ele, "agora, ciente de que não sabe, terá, quicá, prazer em, de fato, procurar (...)".

Procedendo por perguntas e respostas, Sócrates faz com que o escravo dê o ar da graça àquilo que, segundo ele (não sei se concordo com isso), já sabia, ou seja, que o lado do quadrado de oito pés é um quadrado inscrito num quadrado de dezesseis pés. Já sabia, mas o tinha esquecido, dirá Platão. O trabalho socrático consiste portanto numa rememoração do que foi esquecido.
  (http://www.prof2000.pt/users/amma/af18/t5/menon.htm)

Dar aula é um exercício de extrair do aluno o que ele já sabe (e pelo que já sabe chegar ao que não sabe, porém desconfia, por degraus), fazendo-o expressar-se a seu jeito, com suas palavras. Sócrates costumava encorajar seus interlocutores meninos a expressarem-se sem medo sobre aquilo que pensavam. Lançar-se a falar, ter que esboçar aquilo que está dentro de si, é a melhor maneira de iniciar o aprendizado. Como ele dizia, se a pessoa não sabe, vai se embananar e perceberá que não sabe aquilo que lhe parecia fácil de longe. O seriado Chaves mostra algumas situações deste tipo no cenário da escola. "Mas isso é muito fácil." "Ok, então me responda", diz o professor Girafáles.  "Mas é muito fácil, me dá outra." "Não, responda-me essa antes." E o aluno vê que não sabe. Em matemática, acontece de montão.

Como Sócrates disse, é realmente um trabalho de parto. As dores vão aperecendo para o bebê vir à luz.

O trabalho de Jesus era um pouquinho diferente. Consistia antes em acionar o altruísmo da pessoa pedindo-lhe ajuda, trazer à luz seu lume divino, mas não em limar seus erros (não de início). Não era um ensino técnico. Era um ensino de bondade, que se dava pela sua própria vida, pelo que era capaz de inspirar nas pessoas por quem passava.

O método socrático dificilmente seria utilizado por Jesus, porque Sócrates com freqüência sobrecarregava o interlocutor (e podia causar antipatia) com sua série de perguntas e correções. Jesus procuraria antes tornar seu evangelho atraente, gracioso.

Na realidade, quando Sócrates aceitou morrer por Atenas, sua vida também define-se (se faltava alguma dúvida) como uma inspiração. Não é à toa que muita gente compara a trajetória de ambos. Sócrates quis fazer a vontade do Deus interior, que naquele momento lhe sussurrava para ficar.

Outra conclusão tira Sócrates da experiência com o escravo. Pois, se ele já sabia, embora não lembrasse, aquilo que nos revelou, e se ninguém jamais lho ensinara nessa vida, segue que "tanto durante o tempo em que ele for quanto durante o tempo em que ele não for um ser humano, deve haver nele opiniões verdadeiras que, sendo despertadas pelo questionamento, se tornam ciências (...)". Ora, o que nele é imortal, diz Sócrates, é o espírito, que nele habita e que, em operação conjunta com a mente, conduz sua alma. Assim como sua personalidade, já existia antes mesmo que ele houvesse nascido. São presentes dos céus.

Talvez tenhamos pecado aqui segundo as linhas de Lao-Tsé: "O excesso de conhecimento conduz ao esgotamento." Aos poucos nos aprimoramos.

sábado, maio 28, 2011

Que é o riso?

Riso é o extravasamento de um desconforto surgido da percepção de uma imperfeição.

terça-feira, maio 17, 2011

Desculpem, mas Schuon erra de novo ao dizer que a filosofia se esgota no que ela exprime.* Não, a filosofia é uma técnica de acesso e participação possível na realidade completa, não o discurso dessa participação. A lógica, isto é, o instrumento da filosofia, consiste na "progressão sintética da busca da verdade na unidade da fé e da razão e é baseada nas dotações de mente inerentes aos seres mortais, o reconhecimento inato de coisas, significados e valores." (Livro de Urântia) Ela não precisa provar, o que compete à ciência e seu instrumento, a razão, ela quer reconhecer. A expressão de suas descobertas pode, talvez deva, ficar sempre aquém das mesmas. Já Gödel mostrou que qualquer sistema lógico fechado não se explica a si mesmo. Pois a lógica de uma filosofia saudável reconhece esta verdade, abrindo-se aos domínios da fé, que lhe recebe generosa, e subindo e descendo pela "simetria elíptica da realidade e a curvatura essencial da relação entre todos os conceitos." (Livro de Urântia)

Essa subida e descida desde o pináculo do Um pela multiplicidade a que Ele dá início e quer totalizar em Supremacia, não precisa necessariamente ser feita simbolicamente. A revelação está aí para quem quiser ler. A dialética simbólico-analógica apenas a reconhecerá, adequando a seu mundo imaginal aquilo que já nos foi revelado objetivamente.

......

*Conferir SCHUON, De l'unité transcendante des religions, préface.

sábado, maio 14, 2011

Frithjof Schuon e o Livro de Urântia

"O fiel tem percepção intuitiva e inteligência." (Guru Granth Sahib)

A filosofia é uma técnica para resolução, até os seus princípios, de questões que a vida nos coloca, de modo a descobrir os significados em nossa experiência dos valores. Ela procura unificar nossa experiência de modo a chegarmos a uma visão da realidade completa. Para isso, devemos nos tornar capazes de refazer pessoalmente os caminhos das questões que a própria vida nos coloca, indagando-lhes as origens em nossa experiência, procurando estudar o que outros disseram a seu respeito, e relacionando-as com a visão de realidade completa que temos, seja para confirmar o lugar que já lhes era imaginado, seja ajustando o quadro geral para que se responsabilize por elas também.

Metafísica é o conhecimento daquilo que a natureza física, não se bastando a si mesma para explicar-se, indica que haja. É o conhecimento dos princípios que coordenam as experiências humanas material e espiritual, interna e externa. Como a alma, que não ocupa espaço, pode estar no corpo? Essa é uma questão que a metafísica, sucedânea da mota, tentou responder. A alma não está no corpo propriamente. Descartes errou ao dizer que ela está na glândula pineal. Ela se relaciona à mente material e ao espírito.

"A mota é uma sensibilidade à realidade supramaterial que está começando a compensar o crescimento que não se completou, tendo por substância o conhecimento-razão e por essência o discernimento clarividente da fé. A mota é uma reconciliação suprafilosófica das percepções divergentes da realidade que não é alcançável pelas personalidades materiais; ela é baseada, em parte, na experiência de haver sobrevivido à vida material na carne." (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 103, 6, p. 1136)

"A metafísica", diz o Livro de Urântia, "mas muito mais seguramente a revelação, proporciona um terreno comum de confluência para as descobertas tanto da ciência quanto da religião, e torna possível a tentativa humana de correlacionar logicamente esses domínios separados, porém, interdependentes, do pensamento, em uma filosofia bem equilibrada de estabilidade científica e de certeza religiosa." (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 103, 7, p. 1139)

A revelação não é parcial, mas se subordina à capacidade que o fiel tem de recebê-la. Achar que a metafísica é uma via de acesso a Deus melhor do que a revelação é um erro. Se as religiões que surgem da revelação misturam-se, depois, com crendices e doutrinas duvidosas, cumpre à filosofia ajudá-las a evoluir, afastando do trigo o joio, aos poucos, se preciso, para não causar escândalo -- como fez Moisés, ao falar, embora muito incomodado, de um Deus iroso, ao invés do Deus que ele sabia ser amigo, porque os hebreus não o aceitariam -- e coordenando-a com as descobertas científicas.

"A metafísica tem-se revelado como sendo um fracasso; a mota, o homem não a pode perceber. A revelação é a única técnica que pode, em um mundo material, compensar pela ausência da verdadeira sensibilidade da mota. A revelação esclarece, com toda a autoridade, a desordem da metafísica desenvolvida pela razão em uma esfera evolucionária." (LIVRO DE URÂNTIA, doc. 103, 6, p. 1136)

O que Schuon, inspirado em Mestre Eckhart, chama de Inteligência, nas palavras desse "algo que na alma é incriado e incriável" (SCHUON, De l'Unité Transcendante des Religions, préface) é o Ajustador do Pensamento, o fragmento do Pai que em cada um de nós trabalha assoprando-nos a vontade do Pai Universal.

Schuon parece acreditar que essa Inteligência seja um princípio divino a ser compartilhado pelas criaturas que consigam e queiram acessá-lo. Os eus intelectuais têm sua origem na mente cósmica, a qual é a fonte dos potencias intelecto-espirituais que se especializam nas mentes humanas. Ela explica a afinidade entre várias mentes humanas. Nossa mente é um intelecto emprestado, a ser usado em nossa vida material. Nela se escolhe cumprir ou não a vontade do Pai.

Mas o Ajustador do Pensamento não é comum a vários homens. Cada homem é dotado com o seu no decorrer dos seus cinco anos de vida, uma vez que haja tomado sua primeira decisão moral.

Parece então que as mentes humanas compartilham da mente cósmica, ao passo que o Ajustador é uma graça personalíssima do Pai, embora, claro, aja sempre com o mesmo propósito, qual seja o de elevar a mente humana à adoração e agradecimento ao Pai, dispondo-se a fazer sua vontade.

Pelo trabalho de ambos, se apenas aspirar a ser como o Pai, o ser humano pode tomar posse da promessa de sobrevivência eterna.

Schuon está certo ao dizer que nesta vida muitos fiéis não conseguirão se comunicar, por pensamentos, com seu Ajustador, em processo que o Livro de Urântia chama de auto-revelação, e que acontece pari passu com as revelações epocais, como as de Jesus de Nazaré ou de Melquisedeque, ou as que têm a participação de outros agentes celestes para dar voz ao profeta. Mas podem os fiéis, não obstante, sobreviver, porque mais importante que estar consciente do Pai é querê-lo estar. "Sede perfeitos como o Pai é perfeito".

O homem não precisa ser especificamente diferente do fiel para ter uma visão mais clara do divino. Cumpre-lhe, ao revés, extremar sua relação com o Pai do céu, seguindo suas aptidões e dons natos.

sexta-feira, maio 06, 2011

O que é um milagre? -- II

Para toda filosofia sã o milagre ou fato extraordinário não é aquilo contrário ao curso ordinário de forças e leis do mundo, mas aquilo que é o efeito de uma causa situada para além da observação, do conhecido. O que constitui o milagre não é a impossibilidade de explicá-lo (porque a inteligência não explica melhor o curso normal das coisas, ela o reconhece), é sua estranheza, é a contradição em que se encontra face à experiência comum. Ou, esta espécie de milagre, não apenas a metafísica a admite a priori, uma vez que admite que todas as causas são veladas; mas ela a admite ainda a posteriori, uma vez que a isto é forçada todas as vezes que a observação a constata. E o número desses milagres é infinito; o mundo está cheio deles. O progresso, longe de diminuir os fatos cujas causas restam por conhecer, tende a aumentá-los sem parar. Se ele faz desaparecer alguns, cada dia, esclarecendo em seus detalhes o horizonte já um pouco descoberto, faz nascer também outros, cada dia; e é sua glória, porque ele o faz elevando-se a novas alturas, e descobrindo sem parar horizontes mais vastos. A razão é sempre a velha máxima escolástica: naturalia praesumuntur, non praeternaturalia, seu supernaturalia. Não está errada, porque em toda natureza há apenas o natural; mas a natureza não lhe é de todo revelada, e procurando pelo natural ela toca sem cessar no desconhecido, no sobrenatural. A metafísica é precisamente a ciência daquilo que está acima do dado, do conhecido, do observado; a ciência do que se deduz racionalmente do observado, do conhecido e do dado, scientia rerum supernaturalium e naturalibus inductarum. Ou, se é algo que ela induz com confiança, é porque abaixo e por baixo nada se explica realmente; pois o milagre, o sobrenatural, está por toda a parte; pois só há uma causa dando razão a tudo, a maior e mais misteriosa de todas, Deus; pois procurar Nele a causa ou as causas, é procurar onde Ele esteja; de modo que entre sua intervenção ordinária e sua intervenção extraordinária, no âmbito do que aconteça segundo Sua vontade, qualquer linha de demarcação será um traço arbitrário. (Mattar, Jacques. Philosophie de religion, tome 1, pp. 448-450, tradução minha)

terça-feira, março 29, 2011

Saudade é a falta que nos faz algo bom. Pode ser um sorvete de doce de leite que costumávamos comer quando éramos crianças, um passeio pelo parque com alguém, ou uma pessoa, pelos momentos junto a ela de que nos lembramos com gosto.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

No livro A Educacão da Vontade, Jules Payot diz que "toda percepção, mesmo a elementar, é uma interpretação de determinados signos. Eu não vejo uma laranja;", diz ele, "apena julgo por determinados signos que deva ser uma laranja. Mas com o hábito, esta interpretação se torna instantânea e automática e, por conseguinte, não é facilmente atrapalhada."
No entanto, não é assim. A forma se nos apresenta para que a conheçamos. Mas como então chegamos a confundir uma laranja com uma tangerina? A forma da laranja, sua estrutura interna, não chegou a se nos apresentar, fomos informados apenas por certos signos seus, sobretudo por sua cor, os quais, muito parecidos com os da tangerina, não foram suficientes para distinguí-la.
Os signos que a forma disponibiliza podem com razoável grau de certeza indicá-la, mas ela, a forma, pode também vir a ser conhecida, desde que tenhamos, nós e a coisa, chegado a uma relação proporcionada em que ela consegue se nos mostrar e nós podemos e queremos percebê-la. Há uma diferença de fundamento, e não de mero grau, entre os signos que uma coisa disponibiliza e sua forma, aqueles se podem perceber na agitação útil do mundo, mas essa exige-nos solene respeito.
Ademais, o hábito de reconhecer algo por seus signos só pode acontecer porque já se conheceu uma vez sua forma.
O livro de Jules Payot, entretanto, tem sido muito bom. Já me ensinou como direcionar a atenção, não a deixando ao léu das dispersões pelos menores interesses.

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Impressiona como o diálogo O Político, de Platão, tão desinteressante, para não dizer ruim, na primeira metade, com classificações estéreis, como a que mereceu zombaria de Diógenes, o Cínico -- 'Para Platão, o homem é um pássaro sem asas' --, torna-se um diálogo pujante na segunda metade, sobre o ofício do governante e o papel das leis no trabalho de governo. Valeu, Platão.

terça-feira, setembro 28, 2010

A língua que não conversa

"(...) é uma grande ilusão considerar um termo simplesmente como a união de certo som com um certo conceito. Defini-lo assim seria isolá-lo do sistema do qual faz parte; seria acreditar que é possível começar pelos termos e construir o sistema fazendo a soma deles, quando, pelo contrário, cumpre partir da totalidade solidária para obter, por análise, os elementos que encerra." (Saussure, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 2006, p. 132)

Fosse assim, um bebê e até mesmo um adulto não conseguiriam expressar um significado qualquer, porque teriam que conhecer todas as palavras da língua para poder expressar, com uma delas, sabendo de sua diferença face às demais, um significado para seu semelhante. Que trabalheira, não?

Mas o homem, porém, não cria a linguagem apenas para transmitir um significado, ele a cria para revelar-se a si próprio ao outro, esperando reciprocidade, num processo de descoberta mútua. O homem conversa com o Ser que não poderia não ser e se relaciona com Ele, e o ouve, e também fala sozinho -- "Quien habla solo espera hablar con Dios un día" (Antonio Machado) --; mal se pode dizer que um transmite ao outro algum significado conceitual. Trata-se de troca de valores e experiências, como não? O homem também cria a linguagem para erigir as instituições que fundarão sua vida social. Por isso é boba a alegação de que a língua de Virgílio e Cícero não era o verdadeiro latim, uma vez que a população em geral não se expressava com o refinamento dos dois. O latim que condenou Catilina e concebeu a aventura de Enéas formava o imaginário popular e edificava o governo de todos os romanos. Estudamos esse latim, não o que o mesquinho Zé da esquina falou. Aquele é o que pode tentar ser o mais verdadeiro e fiel possível às emoções e necessidades de um povo e de qualquer homem em sua experiência real no mundo, esse é a pululação quotidiana de nossos fingimentos e desejos baixos, falso acerto de contas com um cosmos que nos aterroriza.

Saussure analisa a linguagem em seu nível lógico antes que no da impressão ou experiência real que o homem deseja compartilhar e trocar com seu semelhante. Tem-se a impressão de que Saussure analisa conceitos tecnológicos conhecidos por uma comunidade restrita de cientistas ou técnicos. Ele, no entanto, não era tonto para crer que as palavras não terão qualquer referência a um mundo real, o que equivaleria dizer que a linguagem seria um dicionário sem mundo exterior1, um sistema de palavras que se remeteriam umas às outras sem referência a um elemento externo, o qual, na carona de Gödel, e por analogia, diríamos ser auto-contraditório.

Indicar o significado de algo já realizado, ao invés do apelo, do chamado à realização ou à compreensão e ao reconhecimento de algo na vida criativa interior é uma das críticas de Rosenstock tanto à teoria naturalista-representativista quanto à estruturalista de Saussure e quejandos.

O pai que ampara seu bebê pelos braços incentivando-o a andar, o chefe que manda seu empregado buscar papéis, ou o estudioso da língua que diz "Eu te amo" à sua esposa não estão apenas transmitindo significados, estão encorajando, dando ordens, trocando experiências com a pessoa a quem se dirigem -- e que lhes presta mais ou menos atenção --, conforme a situação. Muitas vezes, aliás, troca-se uma experiência melhor pelo silêncio do que por palavras -- "Espera que cada um se realize e consume / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio" (Drummond). Por isto, os limites da linguagem não são os limites da interação com o cosmos, como queria Wittgenstein. O contrário seria mais justo. O homem intenta através da linguagem -- uma de suas melhores maneiras de fazê-lo --, dizer sua interação com o cosmos, 'no matter how short of it he may be'. As palavras são, ou deveriam ser, nossa tentativa de melhor nos fazer entender -- e também de entender --, de relacionar-nos em suma, com o semelhante, o Superior e até com o inferior -- você nunca conversou com um cão? Quando sei que Viktor Frankl conversava com sua esposa já falecida, a linguística saussuriana parece-me surda à experiência real do homem no amor do Cosmos.

......

1 Quando falo em exterior não me refiro apenas a coisas do mundo material, refiro-me também aos sentimentos, como tal interiores, do homem, às instituições que criou, etc, trata-se de um mundo exterior apenas ao dicionário, não à mente-alma-espírito humana.

sábado, setembro 25, 2010

O sonho da borboleta


"Certa vez eu, Chuang Chou, sonhei que era uma borboleta, adejando daqui para acolá, com todos os fins e propósitos de uma borboleta. Só tinha consciência de minha felicidade como borboleta sem saber que eu era Chou. Depressa acordei e ali estava eu, eu mesmo, na verdade. Agora não sei se eu era um homem sonhando ser borboleta, ou se eu sou uma borboleta sonhando ser um homem. Entre um homem e uma borboleta há, naturalmente, uma distinção. A transição é chamada transformação de coisas materiais." (Zhuangzi)

A distinção é que o homem desperto pode pensar que é borboleta, mas a borboleta do sonho não pensaria que seja homem.