domingo, setembro 08, 2013

Valor e motivação do serviço

Bem no iniciozinho do Capital, depois da fazer uma distinção salutar entre valor de uso e de troca de uma mercadoria, aquela definida como a utilidade qualitativa que uma mercadoria tem, essa como a quantidade proporcional de bens ou dinheiro aceita a ser dada em sua troca, Marx diz que o valor de uma mercadoria, valor por excelência, sem genitivos, deriva da quantidade de trabalho empregada para produzí-la.
 
Mas vamos pensar num exemplo: um carioca sai de seu confortável apartamento rumo à Amazônia à procura de um tipo  raro de pedra, que só existe em uma região remota da floresta. Abre flancos pela mata densa, afugenta animais, dorme ao relento, caça, por fim consegue achar sua pedra e a traz para o Rio. Monta então uma banquinha no meio da rua e a apresenta ao distinto público. "Vejam que maravilha de pedra excêntrica achei, me custou um trabalhão trazê-la para cá e lapidá-la ao gosto da senhora freguesa." A dona dá uma olhada, acha a pedra feia, e não a quer em seu quarto. Outras pessoas passam, acham curioso o anúncio do rapaz, mas vão embora sem a pedra. O que aconteceu? Ninguém quer a pedra, seu valor econômico é zero, apesar de todo o trabalho para conseguí-la.
 
Marx tinha começado bem e se embananou todo. Por mais que valorizemos o trabalho, devemos valorizar também o serviço, que significa tentar adivinhar do que as pessoas precisam, que significa não fetichizar nossos gostos como valores absolutos, justificados a posteriori pelo empenho de trabalho a satisfazê-los. Os valores bons o são porque são bons, não porque tivemos que trabalhar por eles. Muito embora a dedicação em alcançá-los também tenha grande significado.
 
Voltando ao tema econômico, é claro que a dificuldade na produção de uma mercadoria impactará em seu valor de troca. Por exemplo, ninguém pagaria caro por gasolina se ela brotasse de um poço cavado no quintal. Antes de ser refinada, a gasolina foi petróleo em geral difícil de extrair. Mas, como há quem a deseje, alguém pode se dar o trabalho de produzí-la, cobrando caro por isso, claro. Se ninguém a quisesse, entretanto, produzí-la em escala seria, se não um capricho pessoal, um fetichismo egoísta.*
 
Se não identificado e desmascarado, o fetichismo egoísta, porque outras pessoas não o compartilham, por definição não o compartilham, conduzirá a delírios de injustiças contra si e de perseguição pessoal.
 
A criação artificial de sentimentos de necessidade é um efeito colateral, um mal, da economia voltada para o lucro como princípio. Só a motivação do serviço procura enxergar as reais necessidades das pessoas para suprí-las. Da mesma maneira que numa relação erótica, o prazer sensual é maior quanto maior for o envolvimento amoroso, e tende a se esvaziar se buscado por si mesmo, o lucro viria como conseqüência da vontade de servir ao próximo.
 
 
*O processo de descobrir necessidades econômicas das pessoas, provendo-as, sujeita-se a fracassos, mas nem por isso se trata de um fetiche; ao contrário, trata-se de empreender.    

Nobres, burgueses e continuidade histórica

Meu colega Marcio Hack escreveu no facebook que em nossa época todo mundo parece querer enterrar seu passado, que é difícil em sua própria família desencavar histórias de vida de seus avós, etc. Comentei que esse fenômeno é menor na Europa, onde, devido à nobreza e ao sentimento que inspirou na sociedade, as pessoas têm um maior apreço pelo seu passado. Li em algum lugar uma vez que em Portugal era preciso demonstrar que até a quinta geração anterior ninguém havia feito trabalhos braçais para que você pudesse ser considerado um nobre. Deixando de lado a questão do trabalho, isso implicava que o aspirante a nobre estudasse e conhecesse as histórias de vidas de seus antepassados. No Brasil, falemos a verdade, muitos de nós mal sabemos o nome de nossos avós, e de nossos bisavós sabemos no máximo um tanto do que fizeram, de onde vieram. Claro que nos países americanos a imigração contribuiu para a ruptura com o passado, essa, aliás, é uma razão da vitalidade americana, mas, por outro lado, a continuidade histórica das famílias e países é duramente conquistada. Um nobre na Europa, ou ex-nobre, não só não mantém segredo de suas origens familiars, como a exibe com orgulho muitas vezes, quem não sabe sobre os brasões das famílias? Na América, EUA em particular, os ricaços donos de empresas globais, cujos negócios atravessam gerações dinásticas, ao contrário, fazem segredo sobre suas histórias de sucesso, como alcançaram a riqueza e a mantém, os Rotschild, Rockefeller, Ford, a corporação, não querem gente bisbilhotando suas vidas, o que deve ser um sentimento burguês.* A nobreza européia, a casta xátria, que remonta aos senhores feudais, tem, como um bom militar, orgulho de suas façanhas guerreiras e gosta de incensá-las. Duas maneiras de ver o mundo. Mas que é bom saber quem foi seu bisavô, ah, isso é.
 
 
*Alguns empresários de sucesso de fato lançam livros sobre como chegaram lá, como administrar sua empresa, etc, mas geralmente são os pioneiros de um negócio cuja continuidade histórica e dinástica não é certa. Será que os netos dos donos do Google, caso mantenham o poder que seus avós têm, quererão escrever livros sobre suas habilidades negociais? Ou se esquivarão da curiosidade alheia?         

quarta-feira, julho 24, 2013

Palavras que significam muito

Há palavras que são muito caras a seus povos. Uma palavra que os anglo-saxões adoram é common, quando eles dizem que algo é common pode ter certeza que a prezam muito, por exemplo, quando dizem common american. A palavra foi institucionalizada em common sense, common law, commonwealth -- nessas duas num sentido estrito inclusive --, mas guarda um frescor que nenhum americano dispensaria.

O argentino, por sua vez, adora a palavra sencillo, sempre a usa para se referir a algo bonito, pequeno, repetindo com doçura: "es muy sencillo". Lembrei-me disso porque o papa Francisco tem essa simplicidade misturada com um vigor da vontade pouco conhecidos do brasileiro.

sexta-feira, julho 12, 2013

Significados evangélicos da palavra mundo e sobre o homem e o animal

Os evangelhos têm uma coleção de frases em que Jesus acautela seus discípulos contra o mundo, conselho que tem gerado confusão em sucessivas gerações de estudiosos e admiradores. A palavra mundo dá margem a interpretações. O que quer dizer mundo? A realidade física? Estaria ele pedindo para nos afastarmos da realidade física? Como fazer isso?

Há outra frase de Jesus que os mais experimentados costumam citar: "Não peço que os afasteis do mundo, mas que os livreis do mal." O mundo, portanto, não é mau, embora pareça poder facilitar o mal; mau parece ser o mundanismo. O que é o mundanismo? É a vida desligada do espírito, a vida que esqueceu a presença do espírito também no mundo material. Não se fala aqui do mundano dado aos prazeres sensuais, sempre bem-vindos, de beber um bom vinho, etc, porque o espírito saboreia a matéria, mas de um tipo ideológico de mundano que fechou a porta ao espírito.*

A humanidade carrega a animalidade, nós evoluímos do animal. Mas o animal não consegue reverenciar a beleza do mundo, não pode contemplar o jasmin exalando odores, a árvore para ele é no máximo um canto onde irá urinar. O mundo não tem significados para o animal. Mesmo os atos de lealdade que um cão pode ter pelo seu dono têm significado apenas para nós, homens, para ele são instintivos, nada significam. O animal é capaz desses gestos porque o espírito atua nele, assim como no homem; a diferença é que o animal não tem a capacidade de enxergá-lo; a diferença é que o homem, ao contrário do animal, responde à essa atuação.

O animal limita-se ao temporal, quando ele morre acabou, mas o homem tem diante de si, nublada ou solar, a dimensão espiritual. O homem percebe a realidade enquanto realidade, quer dizer, ele é capaz de ver o corte do infinito no finito. Mal comparando, é como se o animal fosse um personagem lateral de uma peça de teatro que não sabe que está dentro da peça, e quando ela acaba ele também acaba. O homem é ator dos personagens dessa peça, ele os interpreta, dialoga com seu autor e sabe, ou suspeita, que existem outras peças, gente nos bastidores e vida fora do palco.**

Jesus quis recordar a presença do infinito no finito: "Nem só de pão vive o homem." Referindo-se a essa frase, Nelson Rodrigues, tão deferente à sua humanidade, asseverou: "A liberdade, para mim, é mais importante que o pão."


*Tem razão portanto quem se insurge contra a idéia de que o mundo é mau, uma espécie de prisão da qual devemos escapar. Não é preciso se incomodar todo ao ouvir um padre falando mal do mundo; saque seu evangelho e diga que Jesus não queria afastá-lo do mundo, queria que você bebesse um vinho bom, aproveitasse a festa e, dá para concluir, se sentisse grato por esse momento.

**Caso alguém detone minha analogia dizendo que, em sendo assim, em sendo ator, o ser humano tem que seguir um script definido, direi que ele é um jogador de RPG, cujos cenários um autor criou mas cujos caminhos lhe estão franqueados.

quinta-feira, junho 20, 2013

Anônimos

Há um fundo geral de insatisfação no ser humano, de inquietude, derivado de nosso natural espírito de curiosidade, esse fundo de insatisfação jamais será extinto por qualquer conquista específica na Terra, será no máximo amainado durante um tempo, para retornar em seguida. Desapontamentos também diminuirão o apetite de insatisfações específicas, mas o fundo geral continuará lá. Essa é a condição humana na Terra.

Esse fundo geral espouca de tempos em tempos em insatisfações específicas. Na vida política de um país, o fundo também se manifesta em maior ou menor grau de quando em quando. O que está acontecendo no Brasil é uma liberação da energia desse fundo de insatisfação em demandas sem sentido específico algum, pedir pela paz ou por educação e saúde, por exemplo, ou em demandas específicas que, no entanto, são de cada um ou de milhares de pequenos grupos. Já foi dito, não é segredo para ninguém, que os protestos no Brasil não têm uma bandeira.

A energia liberada nesses protestos será canalizada de algumas maneiras, será capitalizada politicamente, agora ou quando a poeira baixar. Talvez a poeira seja envolta num redemoinho político ou se disperse em ventanias oblíquas em desencontro. Como se capitalizará essa energia gerada?

sábado, maio 25, 2013

Vida após a morte


Picolé na esquina

Saindo do restaurante, já paga a conta, me aparece um ser de um metro de altura: "Tio, compra um sorvete?" Olhei para o menino, para os colegas que iam, para o refrigerador de picolés, fiz tenção de ir, não pude, fiquei. "Qual você quer?" "Aquele", apontou para o de banana no mostruário. Não havia na geladeira, "escolhe um aqui", disse, pegou logo o Mega, tudo bem. Já quis ir embora, "peraí, a gente tem que pagar antes", então pagamos. Quando saíamos, cheguei-me a ele para que agradecesse. Se não dissesse nada, diria um "de nada", como que lhe chamando a atenção, mas ele se lembrou: "Obrigado", e eu disse um "de nada" afetuoso. Então cheguei-me aos colegas que me aguardavam na esquina. Um deles, depois de um tempo, perguntou: "Foi comprar sorvete?" "Não, foi um menino que pediu."

terça-feira, maio 21, 2013

"Sabe quanto custa a minha?"

Encapuzado em seu terno preto, o professor andava em passos rápidos e preocupados pelos corredores da universidade, sem olhar para o lado.

A sala não estava aberta, era sua única aula que tinha que dar na sexta, às 09:30. Foi à secretaria, perguntou, a secretária enrolada não pudera sair, ele lá reclamando, voltou. Esperou mais um tempo, olhou para o relógio, nada, bebeu água, fez cara feia, quicou a ponta do pé no chão.

A secretária, enfim, chegou. Enfurecido, o professor virou-se-lhe: "Você sabe quanto custa minha hora, minha filha?"

Encolhida, a secretária escutou, mas logo teve um acesso e retrucou: "E você, sabe quanto custa a minha?"

O professor olhou surpreso, fez que não era consigo, entrou. Enquanto dava a aula, ficou pensando, os olhos piscando de quando em quando: "sabe quanto custa a minha?" 

sábado, abril 27, 2013

Incrementum absurdi: Furar esquemas mentais do adversário lançando teses absurdas que o paralisam. Estratagema 40 da dialética erística.

Lançar teses propositalmente absurdas que o adversário terá dificuldade em classificar mentalmente, e que por um momento o paralisam, a não ser lançando mão precisamente do adjetivo absurdas, que parecerá apelativo, quando não desesperado, para os ouvintes.

Dou um exemplo: em 1945, o escritor americano Albert Kahn escreveu um livro, The plot against peace, Conspiração contra a paz, em que acusava os conservadores americanos de tramarem com a Alemanha nazista uma terceira guerra contra a União Soviética.

O que, nesse caso, o político conservador poderia opor a essa acusação infundada? Nada. Xingar o escritor desopilar-lhe-ia o fígado, mas alguns ouvidos mais suscetíveis poderiam desaprovar a reação. Fingir que nada ouviu era-lhe ainda pior, vez que deixava no ar um silêncio suspeito.

Que fazer pois? Desmascarar a tese como aquilo que ela é: um artifício vil para vencer um debate.

Depois da reductio ad Hitlerum, brilhantemente atualizada pela reductio ad fascistum, o incrementum absurdi é o estratagema número 40 da dialética erística.

PS: Albet E. Kahn era um agente de influência soviético.

quarta-feira, abril 24, 2013

Gotham City

Lendo Witness, de Whittaker Chambers, sinto como se estivesse em uma ficção em Gotham City, sem o Batman.

Um ou outro personagem saído de Dostoiévski comporia a cidade escura, em que nada pode ser dito às claras e todo mundo só pensa em escapar de algo que não sabe bem o que seja.

sexta-feira, abril 19, 2013

O economista

Depois de ter escrito mais um artigo para o jornal O Globo denunciando os empresários amigos do BNDES, generalizando seu argumento numa condenação ao capitalismo de compadrio, o economista liberal chega em casa babando de júbilo: "Tô fazendo barulho", fala à esposa, "eles estão pra morrer", goza com um sorrisinho de orgulho, o qual, sem poder disfarçar, lhe treme nos lábios.

De tarde, no twitter, dispara contra a decadência cultural do país em que uma mocinha recebe nota dez com louvor e sugestão de publicação de sua tese sobre funqueiras midiáticas. "Para onde vai o país?", pergunta, "vai não, já foi, para o buraco!", arremata.

E sai feliz com sua vida.

Autores mortos e perfeição

Não me parece a melhor maneira de estudar um autor, ou o assunto que ele propõe, considerando-o "morto". Salvo se ele for repressivo, intimidativo, então matá-lo é  uma defesa compreensível, sente-se mais livre para trabalhar em cima do que ele disse sem querer adaptar-se a seu pensamento. Mas sua vozinha poderá vir puxar a perna do inconsciente à noite, "olha, eu não penso isso, você está achando errado", bom mesmo é considerá-lo vivo, mesmo que seja para brigar ou manter-lhe distância, melhor se for alguém livre e disposto a ver novas possibilidades, com quem conversar, saber o que vai achar, isso tudo tem que ser imaginado a partir do que registrou, intuir-se o que ele acharia, trocar idéias com ele. Não que seja preciso concordar com ele, crescer com ele é que é bom. Sócrates nunca escreveu nada, mas os homens vêm dialogando consigo há mais de dois milênios. Sócrates é uma inspiração de busca da sabedoria, é um autor vivíssimo por causa disso, não fechou num sistema autoritário, ou você está comigo ou contra mim, seu pensamento, ao contrário, deu o impulso inicial, incentivou outros a que praticassem o que fazia, a busca de sabedoria. Enquanto busca, a sabedoria não pode ser capturada. Nem os valores, aliás, que são ideais. Eles são infinitos, nunca se os realiza por completo, daí porque o Livro de Urântia fala em perfeição de propósitos, ou seja, perfeição da busca e do quê buscar, do ato mesmo de querer os valores. A perfeição não seria portanto um estado. Seria uma busca eterna, não uma busca à toa, de algo que nunca se vai achar, mas algo que se revela sempre mais, o lado claro da lua anunciando que o escuro também está lá. Essa busca tem uma peculiaridade: Quanto mais se descobriu, mais se sabe que há algo por descobrir, os lados claro e escuro avançando concomitantemente.

Bons e maus exemplos

Sobre o caso desse mágico que constrangeu uma criança durante show que fazia, o qual rendeu discussões na lista de e-mails do trabalho, uma pessoa escreveu que, embora normalmente pacífica, provavelmente teria partido para cima do mágico, não obstante o mau exemplo que daria a filha.

Ora, discordo do colega. Mau exemplo é ser desleal com o próprio filho. Reagir, ainda que de maneira desmedida, a uma ataque a seu filho, é uma atitude que lhe dará um excelente exemplo. Ele, o filho, terá tempo depois para pensar e dosar sua própria maneira de reagir. Mas se o pai não intercedesse a seu favor, porém, isso sim lhe seria abominável.

Essas observações vão sem entrar no mérito se a atitude do mágico foi absurda ou criticável (esse para mim é o adjetivo que a qualifica minimamente). 

quarta-feira, março 27, 2013

"A esperança é uma erva daninha"

Assistindo ao filme Django livre, lembrei o conto Pai contra mãe, de Machado de Assis, sobre um caçador de escravos fujões atrás das recompensas que os donos ofereciam para sua captura. Nesse conto, Machado não tem aquele viciozinho que o caracteriza, isto é, criar num personagem uma esperança, nutrí-la, e no final dar-lhe cabo para sorrisinho cômico do leitor. Esse conto tem um quê maior de aventura. Só me lembro de outro em que Machado não cede à tentação final da ironia, O conto de escola, simples, cotidianamente familiar, e com uma ponta de abertura para a experiência da vida.

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Quando o marine chama por Osama no filme, "Osama", diz baixinho, alguns pessoas riram e eu não consegui não rir também. Rir é aliviar um desconforto, e naquele momento o nervosismo da operação era alto. Kathryn Bigelow é demais, sem pompons brilhosos, está mais para a catadora de caranguejos que para a patinadora olímpica, segundo a tipologia de Marcio Hack.

Colher de chá para Caio Blinder criticando Hollywood, que abandonou o filme no Oscar 2013.

domingo, fevereiro 10, 2013

Onze e meia da noite, voltando para casa, tenho que passar pelo Corte Cantagalo, quando faz papel de mau, Denzel Washington vem para o Oscar, como ele é desagradável, e vaidoso, vaidosíssimo, não, mais orgulhoso que vaidoso, a hipocrisia é o que permite a vida social, venho pensando, devo subir o Corte, à noite pode ter assalto, mesmo numa noite de carnaval, atrás de mim, iniciando a subida, não vem ninguém, ninguém sobe comigo, então desce um rapaz sem camisa, é Carnaval, deve estar sem camisa, sujo e sem camisa, passa por mim, nem olho pra ele, já na descida, vem um rapaz de bike, ladrões usam bike pra fugir rápido, ele cruza por mim sem dar por meus pensamentos, "desculpa ter pensado mal de você", penso, depois, pra aliviar, um casal, a loirinha falando, chego, subo e escrevo.

domingo, janeiro 27, 2013

Lincoln

O filme, a que fui assistir porque esperava enquanto a chuva de canivetes não passava, meu carro ilhado entre duas piscinas, uma no Baixo Gávea, outra na rua ao lado do shopping, e que só pude assistir porque um casal de senhores desistiu de última hora, ainda consegui um lugar bom, não é lá tudo isso, mas nem eu esperava que fosse.

Lincoln, o incensado presidente, chamado de tirano por uns e que teve a morte de um Julio Cesar, foi um contador de histórias, e ele adorava um livreto que circulou no início do século XIX com causos e histórias fantásticas sobre George Washington, e que criou o mito do homem incapaz de contar uma mentira. Há uma gravura mostrando George Washington discursando e os ouvintes rindo dele porque era incapaz de mentir. Mas essa história que Lincoln conta, embora tenha Washington no meio, não foi protagonizada por ele. Um ianque fora em missão ao Reino Unido finda a guerra de independência e, entre animosidades dispersas, um lorde convidou-o para um baile. Ele lá foi e visitando a latrina, deparou-se com uma gravura de Washington. Na saída, não falou nada a respeito, ao que o anfitrião veio lhe perguntar: "Viste o quadro de Washington?", "Vi sim.", "E que lhe pareceu? Está num lugar apropriado?", ao que ele, depois de um tempo, responde: "Está sim. Washington faz vocês se cagarem todos de medo."


Lincoln aparece afabilíssimo na primeira cena, numa audiência com dois soldados negros. Lincoln deve ter sido realmente um homem de trato muito afável, "with malice towards none", e Daniel Day Lewis viveu bem isso. Ele me dá a impressão de ser um ator sensacional, em quem nada falta, nada sobra, muito técnico, e por isso sinto que falta algo nele, falta o defeito que gera a garra pela melhora. Isso é implicância, claro. Nelson Rodrigues, o chato, intuiria a que me refiro.


Fora a deliciosa história que contei, a melhor cena do filme deve ser o diálogo de Lincoln com sua esposa, interpretada por Sally Field, com quem não simpatizo, ela sempre faz papel de mulher triste e sofrida, sobre a decisão de seu filho de entrar para as forças da União, embora o presidente tenha tentado muito dissuadí-lo. O tema é batido, já foi tratado com louvor no filme O patriota, com Mel Gibson, mas as histórias das vidas se repetem. Desesperada, ela exige que ele proíba o filho de ir para as forças armadas, eles perderam outro filho e não querem perder mais um. Entre idas e vindas, acuado, Lincoln diz que a sua dor é tão lancinante quanto a dela, porém os três, pai, mãe e filho, irão seguir suas vontades; e eles dois precisarão viver com as escolhas de Robert. Ironicamente, foi ele o único dos quatro filhos do casal que morreu adulto.

Como já disseram, o filme é muito escuro realmente. Mas isso não chegou a me desgostar. O ritmo lento, didático quase, não muito diferente do que deveria ser a política de então, imagino, uma e outra história com um leve humor negro que ele conta e uma idolatria de Lincoln, acredito seja isso, incomodaram-me mais.

terça-feira, novembro 13, 2012

Vitamina C

A vitamina C frita no copo,
dissolvendo n'água magicamente.
Dissolve a dor que pelo corpo sente
este hóspede de um vírus misantropo.

segunda-feira, novembro 05, 2012

Latim no colégio

As escolas americanas de elite (a revista Forbes as lista como de elite) Choate Rosemary Hall, The Lawrenceville School, Milton Academy, Phillips Academy, Phillips Exeter Academy, Sidwell Friends School, St. John's School (Houston), St. Paul's School (Concord), Punahou School, The Westminsters Schools, Miss Porter's School, The Roxbury Latin School, todas elas ensinam latim. Não olhei as escolas de elite britânicas e alemãs, mas desconfio que também ensinam latim. Talvez nem precisemos procurar nas escolas de elite. A maioria dessas escolas americanas também ensinam grego. Ahh, atenção: todas elas oferecem também o ensino de chinês.

Brasileiro é bobo.

Mas parece que nem todos. No Piauí, a supreendente escola Instituto Dom Barreto conquistou pela terceira vez o segundo lugar no Enem de 2011. Adivinha: eles ensinam latim. A escola é mantida por um grupo religioso.

A pessoa da minha geração que melhor escreve nesse país chama-se Rafael Falcón e é, por que será?, professor de latim. Posso perceber, estudando a língua, que ela te traz eloqüência e muita lógica. É uma língua muito lógica.

Quem cria escolas no Brasil (a par dos grupos religiosos)? A sociologia da educação deveria se preocupar com isso. De onde sai o dinheiro? O que move seus criadores?