Escravos produzindo farinha(Jean Victor-Frond)
por Dinesh D'Souza
Considere o ateu Sam Harris, que culpa o Cristianismo por apoiar a escravidão. Harris está com a razão quando diz que a escravidão existia entre os judeus do Antigo Testamento, e Paulo até orienta escravos a obedecerem seus mestres. Durante a Guerra Civil[1] ambos os lados citavam a Bíblia. Nós sabemos disso.
Mas a escravidão precedia o Cristianismo em centenas e até milênios de anos. Segundo lemos no trabalho do sociólogo Orlando Patterson, todas as culturas conhecidas tiveram escravidão. Por séculos, a escravidão não precisou de defensores porque não tinha críticos. Ateus que exaltam a Grécia Antiga e a Roma pré-cristã de algum modo parecem esquecer que aqueles impérios se baseavam na escravidão em larga escala.
O ateu Michael Shermer diz que os cristãos chegaram por último ao movimento contra a escravidão. Mas se isso é verdade, quem chegou primeiro? Não havia ninguém. Shermer provavelmente acredita que os cristãos só começaram a se opor a escravidão na era moderna.
Errado. A escravidão foi praticamente extinta da civilização ocidental – então chamada de Cristandade – entre os séculos quarto e décimo. As instituições escravocratas greco-romanas deram lugar à servidão. A servidão tem lá seus problemas mas ao menos o servo não é uma “ferramenta humana” e não pode ser comprado e vendido como uma propriedade. Então a escravidão foi abolida duas vezes no Ocidente, a primeira vez na era Medieval e depois novamente na era Moderna.
No sul dos Estados Unidos, o Cristianismo provou ser a consolação dos oprimidos. Como o historiador Eugene Genovese documenta em
Roll, Jordan, Roll, quando os escravos negros buscaram dignidade durante a noite escura da escravidão, eles não a procuraram em Marco Aurélio ou David Hume; eles a procuraram na Bíblia. Quando buscaram esperança e inspiração para libertação, eles a encontraram não em Voltaire ou D’Holbach mas no Livro do Êxodo.
Os movimentos anti-escravistas liderados por Wilberforce na Inglaterra e abolicionistas na América eram dominados por cristãos. Eles acreditavam que como somos todos criados iguais aos olhos de Deus, ninguém tem o direito de subjugar outro sem o seu consentimento. Essa é a base moral não só da anti-escravidão mas da democracia.
Jefferson foi de algumas maneiras o menos ortodoxo e o mais cético dos Fundadores dos Estados Unidos da América. Mesmo assim quando condenou a escravidão se viu usando linguagem bíblica. Nas
Notes on the State of Virginia Jefferson advertiu que aqueles que fossem escravizar pessoas deveriam refletir que “o Todo-Poderoso não tem qualquer atributo que possa servir para essa causa.” Jefferson acresentou, “E podem as liberdades de uma nação serem tidas por seguras quando retiramos sua única base firme, a convicção na mente das pessoas de que essas liberdades são o presente de Deus? Que elas não devem ser violadas causando sua ira? De fato eu tremo pelo meu país quando reflito que Deus é justo: que Sua justiça não pode adormecer para sempre.”
Mas não era Jefferson também um homem de ciência? Sim ele era, e foi com base na mais recente ciência de seus dias que Jefferson expressou suas convicções sobre a inferioridade negra. Citando as descobertas da ciência moderna, Jefferson notou que “há variedades na raça do homem, distinguidas por seus poderes tanto de corpo como de mente... como noto ser o caso com as raças de outros animais.” Aos negros, continuou Jefferson, faltam os poderes da razão que são evidentes nos brancos e até nos índios nativos. Enquanto os ateus de hoje gostam de posar como exemplos da dignidade, o olhar científico e cético de Jefferson contribuiu não para seus sentimentos anti-escravistas mas para seu racismo. De alguma forma Harris e Shermer falham em apontar isso.
No final permance o fato de que os únicos movimentos que se opuseram à escravidão foram mobilizados no Ocidente, e foram em sua maioria absoluta liderados e constituídos por cristãos. Infelizmente o Ocidente teve que usar a força para acabar com a escravidão em outras culturas, como o tráfico muçulmano de escravos na costa da África. Em alguns lugares a campanha para erradicar a escravidão continua.
Então quem acabou com a escravidão? Os cristão acabaram com a escravidão, enquanto todo mundo parou pelo caminho e olhou.
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[1]N. do T. A Guerra Civil americana foi uma guerra de grandes proporções entre Estados do Norte contra Estados do Sul nos anos de 1861 a 1865 que resultou na morte de 970.000 pessoas.
Dinesh D'Souza é autor do livro What's so great about Christianity(O que há de tão formidável no Cristianismo). Sua página web pode ser acessada em dineshdsouza.com
tradução Daniel Lourenço.